terça-feira, 22 de julho de 2008

A metáfora da Tela


A Tela e o homem

"a migração do Olho rumo a outros objetos (e, por conseguinte, rumo a outros usos que não o de 'ver')" Roland Barthes em ensaio sobre Bataille.

domingo, 20 de julho de 2008

A imagem-tempo


David Bowie em O Homem que Caiu na Terra


Artaud dentro do cinema


“Assim como eu, não tinha esgotado a tempestade evocada por sua nudez.”
Geroges Bataille, História do Olho

Uma questão a ser perguntada, pelo menos cada vez que o filme entra mente adentro, olhos, bocas, é possível sua linguagem ir além das imagens?
Deleuze via o espaço confundindo as direções, eu vejo o corte da palavra em imagens e o despertar do objeto, sugerido e por que não com Barthes quando escreve sobre a História do Olho — “Como um objeto pode ter uma história?”
Passo de imagem à imagem aos livros e atravesso noites aos teus pés.

É a imagem-tempo que pede um regime original das imagens e dos signos, antes que de a tecnologia estragá-la ou, ao contrário, incitá-lo
(Gilles Deleuze em A imagem-tempo-Cinema 2).

terça-feira, 8 de julho de 2008

O louco que veio do céu






Luxo, libertinagem das idéias e panfletos soltos do teco-teco pela cidade. Sua cruzada é contra o movimento de moralização e ele construiu sua crítica com palavra mas não através da rede de computadores mas do alto, do texto impresso em serigrafia e parte em impressão digital e off-set. Comandado por um lunático qualquer que garimpou em blogs e textos que pudessem ter ali sua leitura contra a indignação dos moralistas. Não sobrou nada. Pau para todo o lado. De fragmentos a textos mais longos foram jogados mais de um milhão e duzentos mil papéis na madrugada, num raio que abrange boa parte da cidade, é o que constava num dos panfletos no seu manifesto contra todo o estado de coisas que motivou esse louco. A população de cara nomeou-o de “O louco que veio do céu”. Me parece que ele fugiu abandonando o avião em Belém Novo, sul da cidade, em um campo qualquer. Logo depois foi encontrado outro avião no rio Jacuí, submerso com seu bico de fora. As versões mudaram, e mais outro avião. Estão achando que foram 3 aviões. E ninguém viu o louco que veio do céu depois disso.
O cara deve estar rindo de todos nessa manhã. As rádios moralistas com seus porta-vozes de plantão teceram discursos inflamados pedindo a prisão do louco de Porto Alegre. As rádios fms mais moderninhas, uma com espírito de preservação da natureza vociferou contra o louco, a outra politicamente correta também e algumas vozes perdidas até que ensaiaram um coro unissonante de seus locutores e ouvintes por breves segundos mas foram abafados. Os bêbados comentaram nas ruas, os motoristas sóbrios e os embriagados, os tristes e os desolados moradores de prédios espalhados por todos os lados da cidade não ficaram sem um comentário.
O conteúdo era diverso, desde poemas, manifestos, fragmentos de livros, letras de músicas ao esculacho contra os que produzem e pensam a cultura e a história desta cidade e Estado. Crítica ao marasmo criativo que paira sobre o país, as tendências da moda, sobre os que governam as vidas e sobre as tecnologias que difundem e confinam as idéias livres para depois se tornarem perdidas na web. Uma das marcas do louco. Tudo um pouco esquizo, o fato de vir do céu a crítica e não da terra ou da internet e os textos serem de uma seleção de extremo bom gosto. Quem será essa pessoa. Homem ou mulher? Alguns panfletos eu catei, um com uma frase de Nietzsche, “Nenhum artista suporta o real” e depois acompanhava um texto veemente de pura provocação contra a ordem e à estética instaurada deste tempo de democracia responsável. Um radialista de uma grande emissora de rádio e grupo de comunicação do Estado, a mais ouvida (segundo suas pesquisas), a que fala de futebol e de política, dos dois times da cidade, gritou, esperneou contra o louco que veio do céu – “Essa pessoa merece ser presa, morta, que venha a pena de morte. Que venha a pena de morte!”
Ainda não se sabe o paradeiro dele, mas sabe-se que ele disse não usar droga nenhuma e só toma vinho de Mendonza, para piorar seu cartaz em relação à população. Vinho argentino. A cidade parou numa manhã de inverno com os textos que vieram do céu.
E o mais estranho dos panfletos era um texto do Deleuze:

"Mas o fato, o fato pictural vindo da mão, e a constituição do terceiro olho, um olho háptico, uma visão háptica do olho, a nova claridade. É como se a dualidade do táctil e do ótico fosse ultrapassada visualmente, rumo à função háptica surgida do diagrama."

Trata-se do final do livro "Francis Bacon: Lógica da Sensação" de Gilles Deleuze.

sábado, 5 de julho de 2008

Sábado


Um sábado em Montpellier


O acordar no sábado. Primeiro vem a cerração e depois o preparo do espírito para o dia de sol que romperá as nuvens em poucos momentos. Não é pelo instante e brevidade da vida que nos faz feliz mas a certeza da não se ter certeza dos amanheceres.
Usar a mesma camiseta dormida, colocar o velho abrigo e sentar na bergère para ler umas páginas dos “Ensaios sobre Heidegger e Outros” do Rorty. Tomar um café a recém passado. Ouvir uma sinfonia, um concerto para cello ou violino antes que o sol apareça. Depois ler os jornais na rede, responder e-mails, conversar com os amigos distantes e pensar na frase quando ontem à noite assistia “Os Palhaços” de Fellini que anotei no escuro da sala para ler hoje. Faço isso sempre quando assisto um bom filme na liberdade de ver e ler a linguagem que me fascina e perturba:
— O provincianismo é uma miséria que diz respeito a tudo e a todos, menos a ele mesmo.
Pensei nos modernos da minha cidade. Rio do que escrevo para depois desenvolver no meu mais novo projeto que está mais enrolado que o tempo, mas sei que a certeza se dará pela reflexão diária. O amanhecer se mostra com uma surpresa que não diz respeito à meteorologia e nem à crença e à cultura dos que pensam mais sobre a província como sendo universal do que eu.

sábado, 28 de junho de 2008

O Amor, Maiakóvski, Morin, Caetano e Picasso


Picasso

Lembrei lendo Caetano Veloso sobre o que vê em Moscou, a arquitetura, o metrô, em que tudo parece “cafona” mas encanta e depois o museu Maiakóvski. Lembrei Gertrud Stein falando da influência russa em Picasso, isso em 1938, e lá estava a revolução em destroços, indo pelo tempo e ficando na cabeça de marxistas como se fosse o primeiro beijo. Ela escreveu quando Picasso dedicou seu tempo à escultura:

“A escultura negra era aos cubos, a escultura russa era redonda. Há ainda uma outra diferença muito importante: a escultura das pessoas, as suas feições, na escultura negra, têm uma dimensão normal; na escultura russa, a dimensão é anormal. Uma é pura, enquanto a outra é fantástica. Picasso, o espanhol é fantástico, A arte da Rússia é fantástica e pornográfica”.
Para depois ouvir Gal Costa cantando O Amor de Maiakóvski na música de Caetano
“Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias...”


E depois Edgar Morin, quando escreve sobre o stalinismo, lembra Nietzsche: “Que o homem seja libertado da vingança”(Nietzsche). Daí apostar na incerteza mais do que as verdades que os homens nos impõem. É preciso ressuscitar todas as manhãs em Moscou, Porto Alegre, Tóquio, Paris ou qualquer vilarejo perdido da Terra-Pátria.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A solidão e os livros


Rodin


Ouvindo Solitude com Nina Simone e não com a Billie como sugere o Paul Auster para se ler O Livro da Memória em Invenção da Solidão. O inverno na vidraça. Um vinho, audição de Erik Satie depois e a leitura da solidão que os livros nos jogam e nos tiram sem piedade, porque quem ama a piedade não conhece a dor da escritura cortando o rosto com o frio do Sul.
“Todo livro é uma imagem da solidão. É um objeto tangível, que se pode levantar, baixar, abrir e fechar, e suas palavras representam muitos meses, quando não muitos anos, da solidão de um homem, de tal modo que, para cada palavra que lemos em um livro, podemos dizer a nós mesmos que estamos diante de uma partícula, daquela solidão. Um homem senta-se sozinho em quarto e escreve. Quer fale o livro de solidão, quer fale de companheirismo, é forçosamente um produto da solidão.” Paul Auster em Invenção da Solidão

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Diálogos sobre a caligrafia




"Tudo aquilo que lhe era impossível pôr nos quadros realistas pôs com uma vitalidade extraordinária nas Duas mulheres caligrafadas.”
Gertrude Stein, 1938.


Quando tudo começa? Ao abrir seu notebook o diálogo se inicia. A psicanalista e o Homem Nômade.
Ela diz:
Bom dia
Ela diz:
Ontem estive lá na TV Comunitária da Província, Canal X, em um programa sobre as relações amorosas. Situação inusitada.

Ele diz:
Bom dia, isso é bom. O que era mesmo, uma entrevista?
Ele diz: Sim, sobre relações amorosas, como disse. A filha de um amigo que faz jornalismo e precisava de uma psicanalista e aí me convidou para participar.
Ele diz:
Aí é bom chegar com “Fragmentos de um discurso amoroso” do Barthes...Lindo o texto, para minha compreensão das relações amorosas mais um texto que contribui. O que você falou mesmo?

Ela:
Ah, gosto muito deste livro. Elas me perguntaram sobre as transformações no amor, no casamento, no papel do homem e da mulher...

Ele diz:
Transformações no amor, no papel do homem e da mulher?
Na minha compreensão não existe transformação nenhuma e sim um convívio em que as individualidades jamais se encontrarão e se isso acontecer, ótimo. Pronto, mesmo assim existirá o oculto, o que fica guardado em cada um, a não ser que se anule por completo para se chegar ao Outro, à completude das relações. Penso em coisa, a partilha. Compartilhar alimento e fundamentalmente o respeito na solidão do Outro...
Ele diz:
Não acredito e nenhuma forma idealizada das relações, talvez no acaso, no encontro de solidões e de extremos, desejo em relação ao mundo e aí caberá o Outro. Mas gosto de ver todos os lados. Atualmente ando na caligrafia de Picasso, na possibilidade, ou impossível que o pintor viu e pôs em duas mulheres num quadro. O vitalismo dele, tipo
"duas mulheres caligrafadas”, como sugeriu Gertrude Stein.
Ele diz:
Fui convidado para fazer um trabalho sobre o tema que perpassa as relações e pensei a partir dos olhares do pintor, do escritor, do cineasta e claro, o filósofo ficará de fora, porque ele suga tanto quanto eu (risos).
Ele diz: Mas não tenho nada para pensar agora e desenvolver esse trabalho.

Uma pausa e retorna:

Isso é o que tem de mais importante no momento, a morte das idéias me faz amar menos as coisas..

Ela diz:
Mas acho que para haver o encontro, o desencontro faz parte...sim é importante que a solidão se mantenha presente, não sei se necessariamente isto é ruim

Ele diz:
Mas sou de lua, com ascendente no caos cotidiano. Hoje à tarde ou amanhã aparecerão vários projetos (risos)
Ele diz:
A solidão é imprescindível para quem sabe lidar com ela, mas ela se aloja e busca muitas vezes preencher as outras partes deixadas pelo espaço do indeterminado, da falta do que se pode pôr lá. Talvez um filme, um livro, um poema de T.S. Eliot cairia bem, mas nunca sabemos o momento exato de preenchermos com a vitalidade das coisas. E aí, profundamente, afundamos na bergère.
“Elas eram na realidade cubismo, quer dizer, viviam sem qualquer necessidade de associação nem de emoção.” (Gertrude Stein)

Continua

Ausência

                                                Foto de Car los Aveline - Ilhas Canárias                                        “Vem mergu...