terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Mundo e as cabeças

    Pierre Klossowiski



“A ilusão das ilusões é acreditar, nesse momento, que em verdade nunca estivemos certos a não ser de nossos atos...”
Merleau-Ponty

Existem cabeças no mundo, cabeças moduladas,
Anatômicas, tipo cabeça monoteísta, uma espécie grandiosa, nela tudo cabe. Nele tudo é compartilhado.
Primeiro vem o que está sedimentado, entre o bem e o mal, a cabeça se torna viva se não fugir da lógica do compartilhamento.
Deus olha o invisível, as cabeças existem através do guia, ele é legitimado. Condena e absolve. Vai gozar como coração de outro.
A cabeça do Mal é aceita neste mundo, porque o Bem lhe imporá a pena capital: Viver se torna penoso ao ateu.
Deus monoteísta se alegra dessa lógica de existir. Viver às custas da Unidade faz dos compartilhamentos a salvação cartesiana dos espíritos.
O mundo não é perfeito, o Ocidente, as religiões monoteístas são da mesma cepa: Porra, vai medir a religião em outro lugar.
O mundo fica imperfeito porque o homem pensa mais do que deveria, então, em fragmento ele religa os sentimentos. Porra, ovelhinhas, vão pastar longe daqui.
Isso vale para a extensão da vida, o tecido da socialidade é perfeito se for visto da estrada que leva para o lado da salvação, tanto faz ser pecador, ou alma é livre de pecados, ou o fim é a redenção dos guiados por um ser superior: Porra, vai rezar longe do meu carnaval.

O guia se adianta, diz: os pecadores que se cuidem, não compartilham o demônio!

domingo, 18 de janeiro de 2015

Sala de pensar

    Imagem: Jean Baudrillard - 1996

Aqui em minha sala, entre os livros e a tela, lembro o que Octavio Paz escreveu “amanhece o mundo sem gota de sangue”, penso que esse extrato poético é figuração da imagem, é potencialmente viva, e como ele mesmo diz em outro poema “También la luz em si misma se pierde”.
O que me assombra é o que me dá alento para abrir os olhos e encarar o sangue que escorre pelo mundo, como eu via através da vidraça da janela, no passado, a chuva que atrapalhava minha vida. Faço um café, ouço o sibilo das caturritas que povoam meu bairro, ou portas a bater no apartamento ao lado; ao fundo, o violino do vizinho que estuda no mínimo umas quatro horas por dia. Eu também tenho minhas determinações, acordar ainda na escuridão das manhãs, depois nadar, pensar e esquecer até completar uma hora, submerso, entre um ritmo incessante, leve, cadenciado, penso que é assim que se deve viver.

Nuvens carregadas plumbeiam meu olhar, a sala de um azul cinzento, me imagino segurando um violino entre o ombro esquerdo e o queixo, usar o arco como se fosse no mesmo ritmo de braceadas sobre águas do pensar, como se tivesse escrevendo o texto dos meus olhos num lago azul de cinza até a margem. É mais próximo da cor ideal, imagino o próximo inverno no espaço de minha sala até o fim dos dias.    

domingo, 11 de janeiro de 2015

Andaluzia



Vou pegar um trem, vou até a praia, até a tua rua.
Vou até a praia, vou fazer o vento dobrar a esquina,
Até encontrar teus dedos molhados, água e gozo,
Nadar até a beira do mar, te levar para o outro lado,
Vou pegar um vento, voar contigo até a lua.

No caminho encontrarei o estrago das civilizações,
Onde era a estrada hoje são os rastros, os trilhos,
Vou até o que cheira sal, a morte vem de dentro,
Atravessar os campos, passar os túneis da cidade,
Tudo me leva à pele, o que reveste os sentimentos.

Na trajetória do corpo, a bagagem de fuga, liberdade!
O que me fascina é não estar no estado de espírito, no tempo.
Morrer só se for a caminhar, a nadar, atravessar o oceano,
E te levar para os Arcos de La Frontera, ver o fim do dia,
À noite banhar Andaluzia com nossos passos.



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Musical Filosófica


“Essa de ficar na de que o Brasil não tem ponta direita,
O Brasil não tem isso, o Brasil não tem aquilo,
Que black navalha é você, Beleléu?”
Itamar Assumpção


O Brasil da conversa mole, mais elegante o “blaguer” brasileiro já visto e revisto pelo nosso filósofo do cotidiano poético musical Itamar Assumpção quando disse “chega de conversa mole Luzia”, o nosso expoente pós-tropicália em sua dor elegante é mais filósofo que muitos em mim e nenhum entre ele e a natureza, na música de Tom o som é o alerta da natureza e dos amores. Mais filósofo do que os que enfileiram os quadros doutorais da linguagem, das ideias e das ideologias. Então, nossa real companhia, a vida nua e crua, já foi olhada e escrita no cotidiano, é escrita todos os dias no Brasil ainda nos filamentos de vidas que nascem por aí. O real está repleto de pensamentos que driblam o absoluto da força que alimenta a voracidade dos proclamados, dos escolhidos, e por isso, é por tudo isto, meus senhores, devemos partir da realidade ao sonho e não da ilusão ao sonho. A ordem é não obedecer a minha ordem, é retocar o soneto do som que vem das ruas, das palavras que brotam dos grotões e ver no que se vê o olho entre olhares na multidão. O visto é o que não está dito, hoje, o visto é só na retina, um signo que diz que compreende mas desconhece o significado do sentido. O lido será sempre a compreensão do real do que é visto. Dito e não visto, o país é o prato dos que cantam e leem, o que do mundo se come, aqui se morde.