domingo, 18 de janeiro de 2015

Sala de pensar

    Imagem: Jean Baudrillard - 1996

Aqui em minha sala, entre os livros e a tela, lembro o que Octavio Paz escreveu “amanhece o mundo sem gota de sangue”, penso que esse extrato poético é figuração da imagem, é potencialmente viva, e como ele mesmo diz em outro poema “También la luz em si misma se pierde”.
O que me assombra é o que me dá alento para abrir os olhos e encarar o sangue que escorre pelo mundo, como eu via através da vidraça da janela, no passado, a chuva que atrapalhava minha vida. Faço um café, ouço o sibilo das caturritas que povoam meu bairro, ou portas a bater no apartamento ao lado; ao fundo, o violino do vizinho que estuda no mínimo umas quatro horas por dia. Eu também tenho minhas determinações, acordar ainda na escuridão das manhãs, depois nadar, pensar e esquecer até completar uma hora, submerso, entre um ritmo incessante, leve, cadenciado, penso que é assim que se deve viver.

Nuvens carregadas plumbeiam meu olhar, a sala de um azul cinzento, me imagino segurando um violino entre o ombro esquerdo e o queixo, usar o arco como se fosse no mesmo ritmo de braceadas sobre águas do pensar, como se tivesse escrevendo o texto dos meus olhos num lago azul de cinza até a margem. É mais próximo da cor ideal, imagino o próximo inverno no espaço de minha sala até o fim dos dias.    
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