sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Lógica da Vida

    © Nilson Lopes

“Todo esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho morto.”
Fernando Pessoa


Um sujeito estranho entra na porta do bar, por onde o sol minutos atrás já tinha adentrado sem pedir licença, o cara veio sentou à mesa ao lado da minha. O estranho em todos os aspectos, de terno novinho em folha, com um belo sapato, foi o que mais me impressionou naquele lugar distante em que eu me encontrava, no interior, uma praia do Rio Grande do Norte, o sujeito me olhou, enquanto eu tomava uma dose de uísque sem gelo, desolado naquele fim de mundo. Olho no olho, ele me diz de soslaio numa língua quase parecida com o português ‒ “vou sentar ao seu lado, tenho algo a lhe dizer, senhor”, antes mesmo de qualquer reação, como um leopardo o sujeito já estava ao meu lado mexendo na mochila que trazia consigo. Foi logo expressando sua lógica “A vida é mais do que se imagina. Concorda? O pensamento é uma arma perigosa, o crer é a absolvição da alma.”

Ele retira da mochila uma pistola e um silenciador e nesse mesmo instante já acopla no cano, o tempo suficiente para eu poder reagir, mas não, fiquei imobilizado, ele continuou, “O último gole seu, a vida já era, ou você segura essa pistola e dispara um tiro em minha cabeça ou eu acabarei com a sua a vida antes mesmo de você acabar esse uísque.” Não tinha o que dizer, o cara coloca a pistola em minha mão esquerda. Ele disse de uma forma confusa ou eu que já não conseguia entender mais nada, pensei. Eu era o escolhido, que tinha premeditado tudo, disse que observou meus passos desde a minha chegada naquela praia, que estava no mesmo hotel, que o escolhido tinha sido eu. Agora ouvia a conotação mais audível da vida, as palavras em toda sua extensão, compreensivas, um cara me dizendo tudo aquilo, um derramar de signos, imagens que faziam sentidos num sotaque que diferenciava a todos naquela praia. Sem que pensar bem o que fazer, peguei a pistola com a mão direita e me imaginei disparando a pistola, descarregando toda no teto, mas se ele tivesse outra arma guardada. O que fazer nesse momento, a mão que dispara será mão punida mais adiante, pensei. Olhei fixo nos olhos do sujeito e ele disse de chofre “Nem pensar em hesitar, não existe alternativa na vida, ou atira em mim, ou eu te mato com a minha outra arma.” Depois desse dia, pensei, se sair vivo dessa, prometo, nunca mais viajarei sozinho para descansar, mas não tem lógica, o que realmente contava era atitude do elegante homem com o olhar distante, parecia estar no paraíso, tinha uma calma absoluta, só o sotaque era um problema para mim. Parecia que ao mesmo tempo rezava, entoava a linguagem com uma precisão como se fosse outro idioma. Ele começou um novo assunto, disse ‒ “O destino está traçado, temos que aceitar o destino, eu por ser pecador, você por ser o agente que irá cumprir esse destino, da mesma forma, se não aceitar eu lhe eliminarei, por ser um pecador, um homem do Ocidente, com traços e hábitos de um ateu, então, merece me matar, porque um dia pequei, de outra forma, irá morrer, dá no mesmo. Não tem saída, senhor.”
Pensei mais um pouco, sem pestanejar com a arma já desenfreada, ele tinha feito esse movimento técnico, porque nem esse detalhe eu conhecia minutos atrás, mirei em sua mão contrária a da mochila e disparei a pistola, aquele barulho seco, três tiros, um na mão, outro na perna, o terceiro não sei onde foi. Ouvi um gemido, a voz no fundo enquanto caía da cadeira, “Pecador, você irá morrer, existem outros além de mim, nós iremos matar todos vocês...” O cara caiu no chão, eu chamei o dono bar, ele veio correndo, e perguntou o que estava acontecendo, perguntou se eu tinha atirado nele, eu, com os olhos fixos no homem, disse que sim, pedi que chamasse uma ambulância e a polícia.

A certeza de minha liberdade foi ter atirado para me defender do jogo imposto pelo sujeito, um cara que chega do nada, escolhe outro de forma premeditada, mas precisa ver seu projeto vitorioso pondo fim à liberdade dos dois. Isso tudo eu a pensar, não existia mais lógica diante do fato consumado.
A polícia me interrogou, levaram o cara ao hospital, depois me disseram que era um sujeito com problemas com o governo, que tinha se metido em desvio de dinheiro, lavagem de dinheiro etc, que após sua soltura tinha se convertido ao lado mais seguro da vida. Primeiro ficou louco, depois religioso, agora tentava ir para o paraíso. Levar mais gente era seu propósito.
Mas uma coisa não fecha, depois, um dia mais tarde em conversa com o delegado, um jovem muito gentil, ele era do polícia federal, disse que o cara tinha uma ficha criminosa extensa, tudo isso contra o país, ele junto com alguns políticos, mas nesse meio tempo, delação premiada, liberdade vigiada, se converteu, mas o que não fechava, o delegado disse, foi o fato do sujeito pedir para atirar nele...qual a lógica, me interrogou... Eu respondo ao delegado que ele era o especialista, eu apenas, um viajante cansado do trabalho, que tinha saído lá do sul para descansar em uma praia e terminar de escrever um livro. Meu último livro, que por coincidência trata sobre a existência de Deus na era das redes sociais... O delegado riu e disse ‒ “Meu senhor, parece que está plena forma do pensamento, está liberado, o problema não é certamente com o senhor mas sim com a crença do Outro, com os fantasmas que vivem na vida dele.”

Meu último olhar ao delegado veio junto à lembrança de um poema do T. S. Eliot “Pensamentos cruéis comigo vêm e comigo vão: Ruivo, rio, rio, rio.”

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O Viajante


“Tudo isso é a passagem aos nossos olhos. E nada disso ela foi outrora.”
Walter Benjamin

Um amor além desta cidade,
O verão queima as casas, os telhados brilham,
Um amor além deste lugar,
A vida é mais que um prato à mesa,
É a fome dos fantasmas que vivem nesta cidade.

Um verão a mais na vida dos meus planos,
Depois desta cidade não existe mais um lugar para morar sozinho.
Um amor além desta cidade só com você,
Lá na beira do Sena, irei plantar meu sonho,
Ele nunca morreu, irei catar lixo para sobreviver de amor.

Irei morar em baixo da ponte para pagar o teu doce preferido,
um amor além desta cidade é preciso.
Vamos envelhecer longe daqui, que ninguém nos ouça:
Vamos embora quando findar o dia,
o avião não espera ninguém. Partimos! 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Os acordes da vida


                                                                                                    A Heitor Villa-Lobos




Hoje eu acordei bachiano, acordes em meu corpo,
O templo da vida, a música é refúgio,  
O cérebro é como a casa da fortuna,
Sem movimento, o passo é solo sem som.
Os acordes do acordar trazem à vida o cheiro da floresta,
O voo do pássaro a purificar, lá no alto o céu,
é o chapéu que nos protege.
A floresta é a força que desce as águas, o árido país virou peça de museu de pedras.
O rio é a lembrança dos tempos, o passo voa abaixo do azul, o verde é húmico, desintegra e nasce mais adiante.
A riqueza do coração descansa, o sol ilumina o solo que cruza no som que vem do Amazonas até o sul do país.
Porque hoje, ao acordar, as bachianas me jogaram à dança.
O murmúrio da natureza no rosto do acordar é o vagar translúcido dos passos,
O rasgar do tempo atravessa o lamento do coração,
A terra não morre assim tão fácil, seria preciso silenciar o pulsar dos acordes que o vento traz da floresta.





domingo, 7 de dezembro de 2014

O escritor sem rosto


“Törless tirou da gaveta todas as suas tentativas poéticas.”
Robert Musil

Sobre Antoni Casas Ros existe o mistério que cerca uma vida. A sombra sobre um rosto desconhecido, sobre uma vida, a literatura perdida entre as livrarias, ninguém o lê, ou todos que o leram desconhecem o mistério do autor. Um autor mapeado por cartógrafos das letras, por filósofos desempregados, por artistas esquecidos, por mulheres livres, homens abandonados: sem rostos, todos os rostos que hão de botar a cara na janela, na vitrine, nos espelhos do grande hotel.

Ninguém conhece Antoni Casas Ros, ainda existe rastros do escritor? Em 2014 saiu seu último trabalho, “Lento”, lentamente ele se mostra nas livrarias, em e-books, sumirá na poeira digital, nas redes sociais ninguém mais lembrará do rosto desconhecido de Antoni Casas Ros. Restam os que buscam se conhecer um pouco mais, os que ainda lêem, é, são esses mesmos os que querem desvendar o mistério do escritor de o “Enigma”.

                  Christophe Jacrot

sábado, 6 de dezembro de 2014

O voo do pensamento



“Estimam que se tudo passa, nada existe; e que se a realidade é mobilidade, ela já não é o momento em que a pensamos, ela escapa ao pensamento.”
Henri Bergson


A distância entre o pensar e o refletir sobre um objeto é absolutamente necessária para se saber a medida que existe entre o que se pensa e o que se vê. Então, ver e pensar estariam juntos na mesma caminhada desse ato de imaginação? A reflexão que move essa proposta de pensar move as ideias, digo o que se pode olhar e pensar sobre o real, falo, sobre a teoria do que se nomeia como real, o que está no objeto, mas o que penso nem sempre é o que está lá fixo no objeto, mas nem por isso, ver e pensar é a garantia de que algo real existe neste ato de pensar. A imaginação é o momento em que o fenômeno sobre o estado das coisas se torna um pouco mais palpável: o que se imagina é o que está por trás do pensar, a ideia é ir além dos conceitos. Ainda ontem embaralhei as cartas do pensar, o dilema entre ir à fenomenologia para descobrir o que me faz escolher o que pensar no momento ou ficar no plano de tentar desconstruir as imagens do pensamento. Como sou um homem na escuridão deste século, preferi abrir alguns livros, depois me contentei com as imagens de um documentário do cineasta Godard. Fechei as janelas e fui ouvir Gabriel Fauré.