domingo, 23 de novembro de 2014

Contemporâneas


    Roma
“O que havia de imóvel e de congelado em nossa percepção se reaquece e se põe em movimento.” Henri Bergson

Mãos que escorregam, lábil entre névoas,

abrem os caminhos dos olhos,

através dos cabelos ‒ Invadem.

O corpo é enlace dos dedos,

o firme propósito é atar para não cair.

Mãos moventes, reveladoras, aprovam!

Desfazem as intuições, ação movida.

Mãos escritas, dedos de pensar no século XXI.

(A Paul Celan (Cernăuţi, 23 de novembro de 1920 — Paris, 20 de abril de 1970) foi um poeta romeno radicado na França.)




Fenomenologia de fragmentos



“A utopia é o campo do desejo, diante da Política, que é o campo da necessidade.”Roland Barthes



A irreverência de Nietzsche, em fazer a transvaloração de todos os valores levou o filósofo a transbordar o século XX com aforismos, e um estilo de pensar sem as rédeas da cavalaria oficial do pensamento racionalista.
A idiossincrasia do pensador, dado à polêmicas, foi o que estigmatizou-o, porém seu estilo é uma nova forma de pensar a realidade. Atrevidamente sempre atentou contra a moral. No Crepúsculo dos Ídolos, o pensador ataca:

"Se nós, os imoralistas, causamos dano à virtude? Tanto quanto os anarquistas o fazem aos príncipes. Só depois que se atira contra eles é que eles voltam a estar firmemente assentados em seu trono. Moral da história: é preciso atirar contra a moral."

É preciso passar da lógica cartesiana, aristotélica para uma nova forma de pensar a cultura.
Michel Maffesoli, herdeiro do pensamento fenomenológico e da sociologia compreensiva, faz a crítica à modernidade de forma lúcida. Sem vacilar, num estilo próprio, o sociólogo fará o contorno crítico do pensamento do século XX. Por que contorno? Maffesoli se vale dá mais autêntica tradição nietszchiano de escrever no traço de Bataille.
Na linha marginal do pensamento, o sociólogo faz a crítica do pensamento moderno à crítica de sua valoração teleológica. Aquilo que Bataille retira de Nietzsche para ver o mundo cristão com sua moral, Maffesoli o faz na sociologia e na política para desconstruir a projeto salvador do pensamento moderno.
A unidade e a linearidade são partes de um todo, de um projeto moderno que compõem o ideário moderno. A nova sociologia, se é que se pode dizer, é justamente pôr em cheque o postulado da totalização do sujeito em nome de uma moral teleológica.
O cotidiano é a matéria prima. O estar-junto pressupõe a polissemia na pluralidade e nas contradições. O que na modernidade juntava, unia através da razão, na sociedade contemporânea é separado. Depois une-se o orgiástico no coletivo tribalizado e o estético, filho da cultura de massas, se emancipa

"E o estetismo estigmatizado pode ser justamente uma sensibilidade teórica, que nos permita apreciar a beleza da desordem aparente, sua fecundidade também.(...) Ao contrário do moralismo, o estetismo remete a uma forma de assentimento à vida. Nada do que compõe deve se rejeitar. É um desafio por aceitar." (No fundo das aparências. p.49)

O espírito dionisíaco permite esse novo homem sentir a arte. Esse é homem que surgiu nas ruas de Paris com Baudelaire. Perpassa o século XX com Camus, antes na cartografia dos fenômenos de Benjamin que decorre nas passagens da cidade, como quem pinta ou capta as imagens de uma época através dos fenômenos e dos sonhos dos passantes.
Maffesoli é o sociólogo da fenomenologia cotidiana, sabe como tratar com um dos paradigmas mais caro para à modernidade, a política. Aqui perfaço a política do corpo como a extensão de todas as sobras políticas, os restos como residual e clareza na superfície dos comprometimentos e pequenos lapsos das leituras do mundo.

(Reescritura de texto de 2007 - "De Nietzsche ao presenteísmo fenomenológico")

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Água do sonhar

"Nada me prende a nada Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo."Fernando Pessoa



Faço o teu retrato, faço o pensamento,
Até ontem à noite desfiz o pensar do outro dia.
Arrumei os livros, dobrei as roupas e preparei a comida.
Faço a minha cama, abro os olhos para a noite,
Sonho com a vida, a realidade é o sono do vazio.
Acordo antes de todos, nado até o outro lado da baía,
Sonho nas braceadas com o real do pensar:

A VIDA É LÍQUIDA.

sábado, 15 de novembro de 2014

Cidade Noturna de Rimbaud


“Torres de sinos cantam ideias das pessoas. A música desconhecida escapa dos castelos de ossos. Todas as lendas evoluem e veados invadem burgos. O paraíso de tempestades despedaça. Selvagens dançam sem cessar a festa da noite...
Que braços bons, que hora adorável vão me devolver essa região de onde vêm meus sonos e meus movimentos sutis?”
Arthur Rimbaud


Meu último absinto foi ontem, noturno gole de secar a pele, de queimar os olhos e azular a visão diante de uma cidade que dormia. Fiquei sem saber o fim da história do filme que via ‒ ação e pensamento não me desceu bem, fui até o armário de madeira envelhecida e o vidro transparecia a garrafa intacta de um absinto do passado, nunca mais tinha provado o noturno silêncio da província. Minha cidade não é minha, meu olhos são meus e de quem eu vejo e dorme no quarto ao lado. A cidade soube me receber esses anos todos, bebo o último gole de absinto a molhar a garganta deste fim de mundo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O outro lado do olhar

        “A imaginação é uma das forças da audácia humana.”                                                                                                                                      Gaston Bachelard



Os pés juntos, as mãos atadas, a vida cercada, o lado esquerdo fraturado, a voz rouca do grito, a tortura do pensamento, o cachimbo em bocas abandonadas, os quatro cantos da casa sitiada, a cidade virou um lixo, teus irmãos morreram no assalto, tua vida virou um marca-passo que alimenta um dia depois do outro na vontade de ver o nascer do outro dia.

domingo, 9 de novembro de 2014

A Lente Barthesiana

    (Para Sempre Mozart - Godard)

“A desmedida me conduziu à medida: colo na imagem, nossas medidas sãs as mesmas: exatidão, justeza, música: acabei com o não chega.” Roland Barthes




A minha língua é a tua medida, a distância entre o sentir e o ver das paredes que nos protege. Sou parte de tua parte, carne de tua pele, ossos de tuas dobras, sou o Outro a te perguntar, sou um semblante entre o Eu o espelho da velha casa da infância. A tua imagem já existia desde sempre, entre o sonho e a boca... A medida da minha dor é a letra em sangue que risca tua roupa até o decote de folhas coloridas que vai até a última tatuagem de tua lente. Um olho atento vale tanto quanto pesa a beleza da imagem, quem vê poderá sentir e pensar sobre o dizer do que se vê... a imagem vive para além da tela.

   (National Portrait Gallery)

domingo, 2 de novembro de 2014

A Corja





“Onde está o velho violinista Jones
Que brincou com a vida durante noventa anos,
Desafiando as geadas a peito descoberto,
Bebendo, fazendo arruaças, sem pensar na
                              [ esposa nem na família,
Nem em dinheiro, nem em amor, nem no céu?”
Edgar Lee Masters (1868-1950)



Os iludidos vêm à tona nos dias dos mortos, levantam os braços em nome da coroa de ouro do rei, do monstro azedo que passou por essas terras e deixou a conservação do solo, dos livros, da moral e da política intacto, preservada em conserva histórica que só de tempos em tempos se abre na primavera.
Os iludidos são os mesmo que iludiram o cemitério de The Spoon River, lá os mortos do mal se reúnem e saem a povoar o imaginário de algumas cabeças brilhantes da mídia. O psicanalista foi engolfado, esqueceu de ler o livro e acreditou no conto da vovozinha que um dia lhe narrou na hora da partir.
Os iludidos vivem um momento único na história, estão narrando a própria morte na vida que gostariam de ter.