domingo, 29 de maio de 2016

Compreensão e Interpretação

    Paul Nash-blue-house-on-the-shore-1930



“Não pretendo convencer ninguém, nem sequer ser convencido.”
Paul Valéry

(parte 2)
Interpretar um acontecimento passa pela forma de como compreender um pouco do mundo, diria a voz no cotidiano. E que toda “interpretação se funda na compreensão” daquilo que pensamos como algo parte de nós, do que está no lado externo, no cotidiano a percorrer a significância de que o que se é compreendido se é projetado à interpretação. Existe a abertura ao mundo a partir da compreensão, o ser está presente no que está pensado. As circunstâncias movem o que está em curso, “o mundo já compreendido se interpreta”[1].

Não estou aqui a pensar a interpretação na esteira lógica do uso da linguagem, mas não posso deixar de lado as tentativas da hermenêutica na contribuição de como a interpretação pode ser a via por onde os caminhos do olhar direciona-se em busca do compreendido. Poderia estar neste terreno seguro e verdadeiro, porém, demasiado superficial, para o curso das águas deste rio que deságua no espaço abstrato das intenções protagonizadas por interpretações no âmbito de fatos contemporâneos. Prefiro percorrer o caminho que passa pelo signo do interpretar que consegue compreender as linhas imaginárias do pensamento, e que nem tudo que é da linguagem dá conta do que é do pensamento, e que nem todo pensamento é o plano mais perfeito para se chegar ao entendimento sobre um acontecimento. Neste ponto, entre o que vem para ser entendido e o que passa para ser legitimado como objeto de análise, talvez, o que se pensa, o que pode dar alguma contribuição poderia compreender que suas verdades passam pelo crivo de uma instância comum, e que muitas vezes correspondem uma velha ordem da interpretação autoritária sobre o mundo.
A opção do pensador livre passa por mais de uma concepção de compreensão: ter a mão as possibilidades de compreender o que a conjuntura do ato interpretativo expõe e jamais esquecer que o mundo sem compreensão é como o ente num mundo sem escolhas.       
Para Heidegger o mundo compreendido se interpreta. No Brasil o mundo da política é o espaço em que as ações são comandadas por canalhas que deixaram de lado a compreensão do mundo para por em prática a imaginação insana de suas ideias que só servem para dualizar questões e temas que são partes de um universo conceitual. A clareza das ideias da política no Brasil é tão plana quanto às ideias de um fanático religioso, ou quando cai no terreno do entretenimento e de um mundo desportista manipulador. O fanatismo tem uma mesma raiz, este dualismo de exclusão e de adoração, que perpetua nas gerações seguintes. Mas o que seria do mundo sem essas veleidades, que para alguns é fonte de vida? A potência dessas linguagens está calcada no mundo perfeito dos mídias. Aqui, quase uma entidade, ou melhor, um quase lugar perfeito, é moldado aos porta-vozes da verdade que desprezam a diferença.




[1] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo ‒ Parte 1. Petrópolis, RJ. Vozes, 1988.

Abertura



“O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.”
Martin Heidegger



O difícil acesso de compreender o Ser é o pormenor dos problemas, o contrário seria mais ininteligível ainda ‒ o Ser compreendido pela facilidade de interpretá-lo. A poética é a única saída viável para se entrar no círculo, o círculo vicioso que Heidegger evoca no Ser e o Tempo. A maneira mais filosófica de compreensão é entrar nesse terreno interpretativo para além conhecimento rigoroso. A poesia é concebida na interpretação hermenêutica que parte dos fragmentos para compreensão do todo.

sábado, 14 de maio de 2016

Nascimento do Poeta

                      Imagem: Sophie Calle



A mãe vem com a lanterna entre as pernas,
Depois virá o pai
Pensando que a obra é sua.
(2007)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Brevidade do sempre

      Antonio Paim - Madri 

“Ora, aqui não se trata apenas de confrontar ideias mas de as encarar e fazer viver, e só experimentando se pode saber do que são capazes.”
Maurice Merleau-Ponty

A vida é breve. É o tempo insuficiente para se dar o fim de todas as dúvidas. Li certa vez em um livro, do qual não me recordo o nome, que a brevidade da vida é que faz um ateu, que o mundo é vasto demais para se ter tempo de senti-lo, que se Deus existe se precisaria mais do que um século para conhecê-lo. Herético esse livro. No mínimo eu deveria suprimir todas as dúvidas filosóficas e existenciais que vem no andar dos dias, na velocidade do tempo.

Ando em busca do tempo que fale mais aos meus ouvidos, não do tagarela moralista a incomodar o lado mais puro, ou seja, crer no não crer é uma atribuição saudável ao Ser.
Pensando bem, não li em livro algum, foi um texto que comecei escrever ainda quando era um jovem estudante de filosofia. Na época queria ter a possibilidade de conhecer o mais longe possível sem abrir mão de brevidade do presente, sem ceder um segundo do presente vivido. Com o passar dos anos, dei-me conta que jamais chegaria ao nível de um sábio pensador, pois o presente estava colado ao corpo. Conseguia no máximo divagar em átimos de solidão que pudessem silenciar diante dos alaridos das pessoas, dos professores, dos amigos, da namorada, etc. A partir de um dia, não lembro mais, teve um dia sim, uma manhã em que acordei com a grande revelação. Pensei, disse em voz alta ‒ não vou mais tentar vencer a dúvida, vou viver a contingência na coexistência, me apropriei de Maurice Merleau-Ponty. Desde já, o “sempre” começou a fazer parte de meu vocabulário, até tive problemas com o “sempre”. Um professor disse-me certa vez que não devia escrever num texto acadêmico “sempre”. Refleti. Acatei momentaneamente o comentário. Depois retornei à expressão do “sempre”, penso, tento abraçar a linguagem, mas o formalismo nos mete medo criando regras. Muitas vezes as regras são descumpridas em nome da liberdade, da criação, das leituras que possamos ter do “sempre”. Nem o próprio professor acreditava no que estava a falar, pois quando se pensa o pensamento já se está no mundo da incerteza da existência do pensante.

Passado os dias, escrevi que o legado da modernidade hiper-racional, que a fundação de um mundo que não consegue mais dar conta de seus pressupostos racionais sobre o mundo. Voltei ao professor, entreguei o texto, com alguns “sempre”, ele me olhou com uma expressão de quase um desde sempre e sentenciou: “maravilhoso, está pronto, precisa de pequenos reparos”.

Volto à brevidade das coisas. O ano do meu nascimento, 1961, morria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, para muitos o filósofo do que sobrou dos grandes, que não serve para atar o sapato esquerdo de Hegel ou de um Kant. Mas minha simpatia a ele é de longa data, talvez o nome bonito de se pronunciar fez conhecê-lo um pouco mais. Leio até hoje com a frequência desorganizada de um “sempre” fora de ordem e um não seguir de regras definidas de estudo.