segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Ilusionismo





Manobra, rústico modo de contornar a rua,
Manobra, viés por onde a voz ilude o corpo,
Jogo de linguagem, manobra é artifício.
Ideologias somem através da manobra,
Francisco disse: uma injustiça atroz.
Manobra, a pobreza move a palavra.
Manobra urbana, a vida precisa RESPIRAR.



sábado, 28 de novembro de 2015

Entropia da Calêndula

     Madri

“Mas não tenho nenhuma certeza de que o porvir de vocês coexistia assim com o seu presente.”
Henri Bergson
A ordem é a desordem. Havia um tempo que a desordem era o momento em que as coisas começavam a tomar um ponto a seguir, que as direções se distribuíam conforme os seguimentos da existência pediam passagem. Hoje, o caos não é mais dessa proposição, ou seja, a expressão verbal dos conceitos deixa de ter legitimidade diante dos fatos que atropelam o uso da linguagem. Se o juízo de algo é mais do que uma verdade, se ele passa a ser um acontecimento destruidor, a proposição do que estou aqui a pensar não tem importância alguma de sua veracidade de enunciado.
Esse pequeno esforço recreativo, quase um jogo do pensamento, é porque ando a refletir sobre os efeitos benéficos e maléficos das Verdades seculares, sejam elas de ordem das ideias, dos grandes movimentos e correntes do pensamento, ou da heresia quase suicida de afrontar ao uso analítico de conceituar tudo através da linguagem (velho truque de determinar a veracidade dos acontecimentos) através de um exercício lógico de ver o Real.

É uma pena, esse lance de dados não é o único, isso se tornou inócuo no momento, já vai mais de 30 anos que Jean Baudrillard desfolhou a malmequer, dissecou os eventos na crítica do simbólico e do lógico como se eles dessem conta de tudo e diante de uma explosão poderiam deixar de ter sua eficácia, ou de que a linguagem nada mais era do que um recurso para interpretar, e que os homens convencionaram como o núcleo duro das ideias até esgotar o seu repertório.


Voltamos ao centro da Terra, ao centro da Vida, onde o estômago do pensamento regurgita, onde tudo se liga, até o mais absurdo do niilismo se dedica a pensar o que fazer da existência se seu pensamento parar de pensar, é o vão da porta onde toda espécie de luz adentra ou esvazia o que vem do interior para o fora do lugar. Do centro, as forças da destruição movidas por ideias esculpidas, seja pelo sentimento de um deus, pela adesão à salvação da unidade da vida, desse lugar, todos os outros sobreviventes das ameaças poderão reunir os cacos da modernidade, das religiosidades, das verdades e das ciências. Assim, o pensamento não abrirá mão do olhar cético, esse ar pós-monista que ilumina tal qual o idealismo do olhar realista. A entropia é parte do que restou da unidade, então, me volto para a calêndula: o bem-me-quer da Vida


domingo, 8 de novembro de 2015

Uma tal senhora Beauvoir



“É porque não aceito as fugas e as mentiras que me acusam de pessimista...”
Simone de Beauvoir

O que permanece escrito e não compreendido não é mais um hieróglifo, não participa mais do histórico lastro da linguística que identificava os significados através da escrita. Hoje, podemos dizer que o não pressuposto ato de ver e não identificar é mais um sintoma viral do século XXI. O que chamo de burrice proposital, ou então, do silêncio hipócrita das direitas e dos empedernidos esquerdista que acompanha o som dos imbecis. É uma mistura nonsense que anda solta nas páginas dos obsoletos jornais, das redes sociais, que percorre os planaltos, praias, palcos até moldar o conformismo da opinião pública.
Ontem lendo um velho livro, velho, porque foi escrito por uma senhora que marcou demais a cultura ocidental com suas ideias inovadoras, libertadora e provocante em certo momento histórico. Para que agora seja relida, consigo perceber, a muitos é parte do esquecimento, sim, esquecida, mas também pudera, aqui se lê, aqui se escreve e morre de esquecer o lido e o escrito. Volto ao texto lido, se trata de um belo livro, às vezes superado, mas não é isso que se tem de melhor dele, é o que ainda hoje permanece intacto, pois tanto tempo para melhorarmos e só pioramos as coisas. Está aí para ser lido um pouco mais da velha senhora Beauvoir no livro “Tout Compte fait”, o “Balanço Final.
“Quis fugir dessa opressão, prometi a mim mesma que a denunciaria. Para defender-me dela, apoiei-me desde cedo na consciência que tinha de minha presença no mundo; o mistério de seu aparecimento, sua soberania, ao mesmo tempo evidente e contestada, o escândalo de sua futura aniquilação: desde muito pequena, esses temas me mobilizaram e ocupam lugar importante em minha obra.”



Cabeça pensante


“Como todos grandes livros, difícil de se fazer, mas não difícil de se ler.”
Gilles Deleuze

Não meta o dedo na minha moleira,
Fonte da vida é milenar, é vital em frutos,
Não é do mal, é dos campos e dos mares.
Não pense que a vida é reserva de mercado,
Minha cabeça repleta de ideias,
Não bote fora esse olhar, meus cabelos brancos nascem todos os dias. Minha moleira é perene.
Os sentimentos brotam da videira,
O sol aquece a mão que trabalha e brinda a vida.
Não diminua sua vida sem antes de ler o livro,
O nome que dei ao título está na última página.
Então, não meta o olho em minha moleira.
O que é do homem a vida come, o que é da vida é da vida.