sábado, 28 de novembro de 2015

Entropia da Calêndula

     Madri

“Mas não tenho nenhuma certeza de que o porvir de vocês coexistia assim com o seu presente.”
Henri Bergson
A ordem é a desordem. Havia um tempo que a desordem era o momento em que as coisas começavam a tomar um ponto a seguir, que as direções se distribuíam conforme os seguimentos da existência pediam passagem. Hoje, o caos não é mais dessa proposição, ou seja, a expressão verbal dos conceitos deixa de ter legitimidade diante dos fatos que atropelam o uso da linguagem. Se o juízo de algo é mais do que uma verdade, se ele passa a ser um acontecimento destruidor, a proposição do que estou aqui a pensar não tem importância alguma de sua veracidade de enunciado.
Esse pequeno esforço recreativo, quase um jogo do pensamento, é porque ando a refletir sobre os efeitos benéficos e maléficos das Verdades seculares, sejam elas de ordem das ideias, dos grandes movimentos e correntes do pensamento, ou da heresia quase suicida de afrontar ao uso analítico de conceituar tudo através da linguagem (velho truque de determinar a veracidade dos acontecimentos) através de um exercício lógico de ver o Real.

É uma pena, esse lance de dados não é o único, isso se tornou inócuo no momento, já vai mais de 30 anos que Jean Baudrillard desfolhou a malmequer, dissecou os eventos na crítica do simbólico e do lógico como se eles dessem conta de tudo e diante de uma explosão poderiam deixar de ter sua eficácia, ou de que a linguagem nada mais era do que um recurso para interpretar, e que os homens convencionaram como o núcleo duro das ideias até esgotar o seu repertório.


Voltamos ao centro da Terra, ao centro da Vida, onde o estômago do pensamento regurgita, onde tudo se liga, até o mais absurdo do niilismo se dedica a pensar o que fazer da existência se seu pensamento parar de pensar, é o vão da porta onde toda espécie de luz adentra ou esvazia o que vem do interior para o fora do lugar. Do centro, as forças da destruição movidas por ideias esculpidas, seja pelo sentimento de um deus, pela adesão à salvação da unidade da vida, desse lugar, todos os outros sobreviventes das ameaças poderão reunir os cacos da modernidade, das religiosidades, das verdades e das ciências. Assim, o pensamento não abrirá mão do olhar cético, esse ar pós-monista que ilumina tal qual o idealismo do olhar realista. A entropia é parte do que restou da unidade, então, me volto para a calêndula: o bem-me-quer da Vida


Nenhum comentário:

Ranhuras da vida

“... acordou no cume de um sonho que se eleva no céu, como no cume de uma onda. E, subitamente, não se recordou de mais nada.” Ricardo Guilh...