quarta-feira, 29 de julho de 2015

Abertura do Ser



“Ele sabia, porém, que a linguagem nos suporta como um elemento. E, contudo, ele a obrigou frequentemente com violência a se voltar contra si mesma.”
Hans- Georg Gadamer


Tarde cinza, a escuridão do quarto, a janela se abre com vento que vem do outro lado do rio. A batida na janela é forte. Zunindo, o som é zinco a zunir em meus ouvidos, a mão invisível força a persiana, força meu sono a acordar. A luz que entra no quarto é tempo do sol, um prenúncio de primavera que é envolvido pelo movimento ‒ a Terra, o corpo inerte, as mãos nos olhos, a boca na secura, os olhos na persiana que bate, escancara a alma ao tempo ao som da “Oração ao tempo”.
Um corpo, antes inerte, acorda sem se importar com nada, o vento passa de um lado a outro, homens cruzam sua casa. Fantasmas em olhos embaçados, seu quarto é invadido por cavaleiros das trevas. Um cheiro forte fica no ar, o incenso da vizinha se mistura no cheiro do café vindo da cozinha. O caminho até o fogão é próximo. Pássaros habitam a antena de TV do prédio ao lado, cabelos úmidos e fétidos adeuses que ficaram no tempo de outro lugar. Um homem sem se mover, olha em volta, resmunga, olha o lado contrário da capa do “Ser e o Tempo”, o vinho cheio na garrafa, pensa em levar as mãos até o clarão vermelho que completa a borda do cálice. As mãos trêmulas. De um só pensamento. Levanta! Consegue ir até a porta, entra e diz ‒ vim tomar um café no meu amanhecer.
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