quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A Ilusão do Real


“Assassinato do Real: isto soa como Nietzsche proclamando a morte de Deus. Mas este assassinato de Deus era simbólico, e iria transformar o nosso destino. Ainda estamos vivendo, metafisicamente vivendo, deste crime metafísico, como sobreviventes de Deus. Mas o crime perfeito não envolve mais Deus, mas a Realidade, e não se trata de um assassinato simbólico, mas de um extermínio.
(...) E isto porque o Real não está apenas morto (como Deus está); ele pura e simplesmente desapareceu. Em nosso próprio mundo virtual, a questão do real, do referente, do sujeito e seu objeto, não pode mais ser apresentada.”
Jean Baudrillard



O que é percebido, o que é visto antecipado por já estar lá, é que está fora do conceito, o conhecer disso é poder de observação ao longe; mais de perto, é poder compreender que se existe, é o que ali está no canto de todos os objetos, imagens inventadas, pensadas, antes mesmo de serem nomeadas e o que não precisa ser quantificado, por exemplo, a vida... é o que temos, o que está posto sobre o mundo. A vida é tempo sem tempo a preencher o ar com inaudito, com aquilo que ainda estamos tateando, o perceber é condição para se conhecer. Pássaros de um real que não existe.




sábado, 14 de dezembro de 2013

Mãos de palavras


“Toda boa escultura, toda boa pintura, toda boa música, sugere os sentimentos e os devaneios que ela quer sugerir. Mas o raciocínio, a dedução, pertencem ao livro.”
Charles Baudelaire


Ela inclinou o corpo até o outro lado da mesa, ali estava ela, com os olhos nos seios, com os olhos no cálice, com a boca em suas frases, inclinou um pouco mais do o normal, quase na horizontal, mais do que fazia em outras situações. Um lugar público, um olhar íntimo, uma voz que parecia vir das caixas de som, que vinha das imagens da tela, entravam mãos e braços, o outro lado da mesa estava ele com os olhos em seus lábios, o movimento da língua, imaginação de que a liberdade pudesse existir na língua...a partir do começo na linguagem nasce um texto, um verso morre no copo ou no corpo das palavras.
Ela do outro lado da mesa disse –

estou com sede, favor me servir um cálice, eu sei que minha voz é melhor que o que escrevo, mas sua escrita não é minha companheira já um tempo, então me escuta, eu quero um gole do teu gole, meus seios são só de quem vê a vida, tipo, tipo, eu mesma, o resto que se foda...enche esse cálice e a vida ficará melhor com nós dois aqui neste lugar em que não se vê mais mãos sobre mãos.

                  Imagens a partir do filme de Murilo Salles
               

domingo, 8 de dezembro de 2013

Balada no “FaceBaker”

                               Do filme La belle Noiseuse 


“Acredito que o erotismo está fundado no interdito; que, se não houvesse em nós um interdito que se opusesse profundamente à liberdade de nossa atividade erótica, não teríamos atividade erótica.”

Georges Bataille

Mostre tua roupa, tua boca,
Os teus peitos, os teus enfeites,
O teu corpo, os teus defeitos,
O olho que vê o sol, os sinais da vida,
O alcance dos braços, a voz de um outro lado,
As mãos que asseguram o livro - Os pés,
O andar até a geladeira, o gole de água para não secar.
Mostre um pouco das entranhas, não quero ver poesia,
A tela é um brilho que cega, o ver mais longe está na lábia,
No passo da mulher que saboreia o filme sem manchar o olho.
A ruga que vem ao natural, o seio que vê o horizonte, o cotidiano que arrebata o desejo das noites,
Que atravessa as paredes da idade.
Mostre teu riso, tua boca, teus peitos,
Música para embalar, língua para deslizar linguagem, dias que morrem: o eterno sabor melódico.
Enquanto esse decifrar não chegar ao fim, mostre um pouco de ti nesta balada de Baker.


  Imagem de Emmanuelle Béart