domingo, 26 de agosto de 2012

O equilíbrio



“Não se trata, para mim, de opiniões, mas de necessidades.
Não se pode ter o ideal da sinceridade e mostrar apenas os lados bonitos,
as partes imponentes de seu ser.”
Hermann Hesse



As mãos ensanguentadas dizem tudo, minhas mãos assassinas dizem nada,
Eu percorro a vida como se fosse a morte,
Caminho em cima dos teus ombros como se fosse a última noite de bebedeira,
Um sorriso em tua nuca, os cabelos em minha boca,
a língua esconde o tempo das paredes envelhecidas.
Dos teus olhos, de tua boca sedenta, os lábios sem dizer adeus,
eu que me afundo em noites sem fim.
Eu misturo o fumo com a guimba, os restos da solidão em dor.
Eu nunca digo que te esqueci.
Não misturo a dor com a solidão de uma noite.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Texto e o Criador do Texto




O mundo consta da sua matéria total. Pois, não é possível existir outra terra diferente desta, porque qualquer outra, onde que se achasse tenderia para o centro desta.
Tomás de Aquino




  O movimento permanece ininterrupto, só as mãos, absoluta do Nada, o poder de manipular as coisas, um comando do cérebro e a língua brota da tela, um comando dos nervos, a tela se move em imagens. A imagem úmida não diz nada além daquilo que o desejo de molhar o mundo com coisas menos imundas é nascedouro do texto.
    O texto tem seu movimento, o mover não é único, como se existisse um apenas, um primeiro movimento, um Deus em sua unidade da ordem e que todas as coisas pertençam a um só mundo. Aquilo que eu chamo, às escuras, roubarei a máxima de Tomás de Aquino para sobreviver ao texto que não chega ao fim.
    O fim é sempre um começo, mas ao contrário do filósofo, a ordem não  é legitimada pelo texto fundador.
  Hoje o texto é a não unidade das coisas, o texto é a não unidade de um exemplar único no mundo. Hoje, o mundo, esse exemplar é o texto estilhaçado em muitos mundos, o porquê das coisas de não terem apenas uma unidade, um entra e sai ao mesmo tempo das unidades contrariam a ordem do criador.
      



sábado, 18 de agosto de 2012

Sonho Roubado





“E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
E lhe doa talvez aquela pele!”
(O muro – Pedro Kilkerry, 1921)

Meu sonho era só teu, minhas lágrimas ficaram entre o travesseiro e o frio,
A vida disse nada
Ao redor ela dormia,
As mãos foram diretas em minha alma,
A salvaguarda do passaporte,
A identidade nua,
Minha própria pele longe da morada do Ser.
A ladra dos sonhos.
O silêncio em teu corpo era a distância entre a Gare Montparnasse e Saint-Malo.
Um trem que se perdeu no mar.
Minha dor foi eterna, eu dormi até o fim da viagem.
Nós dormíamos, os teus cabelos escuros em minha noite,
O cheiro de cigarro na casa, o vinho derramado,
As tuas ancas ficaram frias, fugiu de mim, ao longe,
A sonoridade das cores, as louças e as chaves desapareceram.
Acordei em lágrimas, acordei o silêncio com a dor, a casa saqueada,
Como a noite, a tua música matou o escuro, congelou meu sonho.
Acordei em ti, perto dos teus ombros, o tilinto do sono ao nosso redor.
Sorri para a manhã chuvosa.
Paris respirava comigo, pouco importa se tinhas partido.
Os amigos cuidam do café e o sol do outro lado da cidade silencia a noite.



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Peixes da Vida




“Acordados eles dormem.”
Heráclito

Os velhos barcos e os mares são perdições.
Nem toda alma sobrevive aos sonhos dos embarcados,
Nem todos afundam com os peixes abandonados nos porões dos sonhos.
Um peixe colorido é o olho para o Ser, um peixe veloz é a voz dos sonhos,
Eles são os únicos que conseguem sobreviver aos arpões da vida.
A merda é quando a vida se disfarça de morte e vem perseguir os velhos marinheiros.