domingo, 3 de junho de 2012

Paul Auster - Sunset Park


Um fragmento do romance de Paul Auster, Suset Park, Companhia das Letras, 2012.
Tradução de Rubens Figueiredo


“Tangibilidade. Essa é palavra que ele mais usa quando discute suas ideias com os amigos. O mundo é tangível, diz ele. Seres humanos são tangíveis. São dotados de corpos e, como tais corpos sentem dor e sofrem doenças e são atingidos pela morte, a vida humana não se alterou, nem por uma fração mínima, desde o início da humanidade. Sim, a descoberto do fogo tornou o homem mais aquecido e pôs fim à dieta de carne crua; a construção de pontes permitiu que ele atravessasse rios e córregos sem molhar os dedos dos pés; a invenção do avião lhe permitiu saltar de um continente para o outro e transpor oceanos, ao mesmo tempo que criou fenômenos novos como jet lag e o cinema a bordo – mas ainda que o homem tenha modificado  o mundo a seu redor, o próprio homem não mudou. Os fatos básicos da vida continuam os mesmos. Vivemos e depois morremos. Nascemos do corpo de uma mulher e, se conseguirmos sobreviver ao nascimento, a mãe terá de nos alimentar e terá de cuidar de nós a fim de assegurar que continuemos a sobreviver, e tudo que acontece conosco desde o momento do nascimento até o momento da morte, todas as emoções que brotam dentro de nós, todos os rompantes de raiva, todas as ondas de desejo, todos os ataques de lágrimas, todos os estouros de riso, tudo aquilo que sempre vamos sentir no decorrer da vida também foi sentido por todo mundo que veio antes de nós, sejamos nós um homem das cavernas ou um astronauta, moremos no deserto de Gobi ou no Círculo Polar Ártico. Tudo isso lhe veio ao pensamento numa erupção epifânica e repentina quando tinha dezesseis anos.” (p. 69-70)


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