sexta-feira, 29 de junho de 2012

Todas as mãos são mortais


“O corpo humano tem cabelo. O corpo humano tem boca. O corpo humano tem órgãos genitais. O corpo humano é criado do pó e, quando esse corpo humano não existe mais, volta ao pó de onde veio.”
                                                                                Paul Auster



       Eu não me olho no espelho tanto quanto o que olho em minhas mãos. A vida! As mãos denunciam tudo, vida, o tempo da gola da camisa, o tempo de minha janela envelhecida, o tempo do mofo nos bolsos e nas mãos. O tempo em minhas mãos é mais forte do que olhar o próprio perfil no espelho, a flacidez é a circunstância entre o início e o fim, é mera luz entre a ideia do tempo e a velocidade do envelhecimento. A barriga é circunstancial, ela não tem rugas, tem sinais, cortes, tem resquício da vida na morte, mas isso é sinal de vitória. É o presente que ganhei no final dos trinta, o início dos quarenta foi o começo, as mãos davam amostras dos sinais, outros signos do tempo, das rugas. As rugas e o tempo acompanham minhas noites. A calvície está longe dos olhos, os cabelos brancos convivem bem comigo, é mais um sinal de que conviver por muito tempo é perdurar as guerras, sobreviver junto comigo todos estes anos, o Conde Fosca: o tédio de ver o tempo das mãos.
       O rosto é solidário com a impressão digitalizada, com as noites acordadas, com o sono profundo na solidão, por isso o rosto é mais resistente do que as mãos, ele está mais propício à luz solar, mas tem o meu cuidado, os olhos agradecem sua deficiência, a miopia, o cansaço etc. Já as mãos diante da vista, mais do que um espelho em frente do Conde Fosca, por isso essa intimidade ininterrupta que nem ampulheta, uma conversa que se perde no fio do tempo, só de pensar, estou envelhecendo, a voz ressoa meus pensamentos.
       Seu eu fosse um pianista imortal certamente não perceberia as rugas com frequência, mas sentiria a agilidade dos dedos no teclado infinitamente, existiriam outras preocupações comigo. Minha música é outra, é o ofício de ouvir, de ler, de poder respirar, cadenciada a vida, enquanto nado, como se o tempo não morresse. Meu esporte preferido, natação, mostrou-me a evidência das mãos, do ressecar da pele, o uso constante de cremes, os olhos se voltam às mãos. Esse ato do nadar me levou a outros momentos da vida, me reporta à solidão, e como poderei viver ao lado dela sem procurar apoio das paredes? Grupos de humanos, por mais demasiado humanos, escalam o mundo, eu sou outro humano, o ato de nadar me jogou à ideia: e que a solidão faça da imortalidade o que ela fez com minhas mãos. Um dos componentes que o corpo deve ter para nadar com precisão, a agilidade, o movimento das pernas, os pés ágeis, o mover na água, mas o que eu vejo são as mãos na velocidade do pensamento.
       A solidão acompanha-me desde a adolescência, já fui à guerra com a solidão, quase morri. O medo do abismo é um fim na solidão que desconhecemos. Recuperei o que restou de mim, inventei novamente um olhar, formas de leitura, de perdição noturna, mas lá estavam as mãos, ao lado do tempo, sem perder ou ganhar, resiste ao tempo. A solidão é parte da vida, da alegria, das leituras, das guerras vividas e dos confrontos do cotidiano.


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