terça-feira, 26 de julho de 2011

Pour Moi - Anotações -


O Editor de Romances é uma plataforma para o abismo de si mesmo. O Editor de Romances não sofrerá sanção por parte dos protetores da vida, ou daquilo que se chama ultimamente como “uma vida acima de qualquer suspeita”, ele gosta de estar longe da suavidade desses princípios. A sociedade, o público, o privado e o cotidiano, cada uma das coisas, para o Editor de Romances, não passa de alento para suportar o momento em que se encontra: a plenitude da Solidão. Entrou no processo de parafuso digital, uma espécie de nervura nas mãos de tanto ficar na prisão do ofício, o único que engana as maiorias: editar imagens no romance que não acaba mas chega ao fim.

Ele suportará seis meses recluso, embaixo d’água, submerso nas águas turvas do rio que corta a cidade impiedosamente nos invernos. Viverá com um prisioneiro que perfura um túnel para escapar do medo. As páginas estão na luminosidade certa para ele continuar a fuga. O tempo deu uma trégua, todos os diálogos foram retirados, mas a linguagem é a tentativa de clareza da história que ele continua a construir.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Para Jean-Luc



"O artista está sempre na situação de dizer a um só tempo: reclamo novos meios, e temo que os novos meios anulem toda vontade de arte, ou façam dela um comércio..." Gilles Deleuze


Vivo à margem do espetacular, o cotidiano, esse realismo despedaçado, é o movimento mais longo para se chegar à noite. Yo Yo Ma interpretando Edward Elgar, é o movimento mais preciso para não me perder no dia que fracassa diante dos olhos. Por isso, observo daqui, dedos que lacrimejam a solidão do rosto, os cabelos crespos que morrem, o sorriso de uma pele que clareia em pleno inverno, queima no verão parisiense, esvoaça no frio do Sul da Cidade Baixa. Desaparecimento dos espaços que suscita o que se chama de “espaço qualquer”, lugar onde nada mais cabe, lugar onde a imagem é superada pelo presente “outro”. Momento desfigurado, árvores abatidas, folhas que caem em pleno olhar que vem do fundo das ilusões que se perdem quando acaba a música. O filme morre nas palavras do cineasta que decreta o fim do cinema, o fim da vida para ele, o cinema não tem mais jeito, perdeu o encanto, a linguagem já estabelece todas as formas das superfícies, os lugares já estão catalogados. Só nos resta a impressão da última noite, momento certo para se ver mais um filme.   


domingo, 17 de julho de 2011

Brasília


Raso, rasa, terra furuncular de sonhos
Carne seca, tambaquis, caviar de cabra,
Ouro mais valioso de tudo, Museu do Nada.
Todos lá, como tesouros perdidos,
na letra que esconde o segredo da terra.


Não opinam, decidem, arrasam a terra de alegria e miséria,
Medusas afáveis, amam a comida que lhes é servida,
Dormem felizes, depois acordam,
Vivos, que nem tamanduá-bandeira a sorver o sol.