domingo, 4 de novembro de 2007

Lisboa


Foto: Sophie Calle

"Todo zonzo e descabelado, todo bobo de felicidade, todo turvo de sexo, de pele e de idéias sobre minha nova vida." Paul Auster em O Livro das Ilusões





Ando perdido, perdido nas palavras impronunciáveis, em rastros deixados pelos signos. Ando ao encontro da perdição do Ser. Vagalumeando encontro-me nas páginas de um Auster até o amanhecer.

Aquilo já era tarde pensei. Suzana ainda estava dormindo. Chegou cansada de nossa viagem pelo interior de Portugal. O carro que nos trouxe, aliás, um motorista que fora emprestado pelo diretor da Universidade Livre de Lisboa. O motorista particular do diretor ficou vigiando-nos durante dois dias seguidos. Mais parecia um policial da migração olhando nossos passos. Nos levou de Lisboa até Porto. Nos divertimos. Suzana estava feliz. Por dois breves dias tinha esquecido o transplante de córneas que teria que fazer. Aceitei o convite de ser pesquisador para ficar ao lado dela, já que eu tinha conseguido um tratamento adequado aqui. Ela não poderia ficar sozinha em Londres esperando que alguma coisa acontecesse. Nada mais aconteceria na vida dela que não fosse a medicina e nem meu dinheiro já era suficiente para dor e dispersão diária dela. Não havia lamento naquela mulher. Havia um olhar perdido a cada manhã.
Chegamos 19 horas. Ela tomou banho e foi dormir. Eu tive tempo de ler os e-mails, entrar no msn e parti para derrubar a terceira garrafa de vinho tinto português comprado na viagem pelo interior daquele país fascinante. Lembrei do filme do Win Wenders, de Madredeus tocando no cd do carro. Ali Suzana, linda, seminua, tudo transparente, sem calcinhas, as formas do corpo, seu cheiro exalando nosso pequeno studio, um estilo de loft improvisado mas aconchegante. Um computador pra ela, meu notebook, uma escrivaninha apenas para ela, minha mesa pequena. Os livros atirados, as roupas dependuradas e um armário só para Suzana. Tudo ao dispor de sua infinitude. Dá vontade de não se perder na escuridão, catarolava ela num pequeno poema que tinha dedicado aos seus olhos. Logo Suzana, de lindos olhos prestes a cegar. Tanto importa dizia, queria mais ficar ao lado da vida do que qualquer outra pessoa naquela cidade.
Justamente eu que estou trabalhando com imagens, com os signos transpostos da escrita para o cinema, ou do que foi filmado. Resgato esses signos, ao mesmo tempo, que busco a cura da Suzana e a escrita nos alimenta. Um estudo fenomenológico da imagem. Suzana deitada. Ela desperta e no exato momento toca Satie, “Gymnopedies” bem baixinho, justamente para não acordá-la, mas ela me sorri, e pergunta:
— António como é mesmo o nome dessa música linda, Trois Gymnopedie? Aprendi a gostar de coisa assim, na lentidão das folhas que caem, como você costuma dizer. Mas o que mesmo significa essa música, qual a origem? Você já me contou mais de uma dezena de vezes, mas cada vez que conta, sinto vontade de poder dançar novamente, mas já não me sinto segura tanto assim. Estou cada vez mais longe das imagens, como se elas não fossem mais papáveis. Só você consegue uma coisa e vem e me trazer elas de volta. Como posso sentir tanta coisa agora, logo agora que tenho medo?
Fico olhando Suzana, falando sem parar e dizer tudo isso, um reclamar que se renova nas manhãs que ela sente o fim de sua dança. Ainda resta vinho e eu digo que não era para se preocupar que no presente momento restava sete garrafas e que tinha ido numa delicatesse enquanto dormia e comprara uns vinhos com a primeira grana do mês recebida. Minhas economias dariam para um bom tempo caso não tivesse vindo a Lisboa e tivesse ficado no Rio enquanto via a distância Suzana sozinha em Londres.
Ela deitada, agora de bruços e conversando comigo, com as pernas para cima, os pés como se tivesse nadando, pedia um cálice. Sua bunda linda, erguia o braço pra pegar o cálice e pedia um beijo. Sempre a mesma pergunta
— Você acha que seremos felizes, ainda mais um tempo, mais do que o que resta para mim? Será que vai deixar de olhar para o meu corpo pra olhar para outra vagabunda?
Eu sempre respondia a mesma coisa. Depende da circunstância, se eu tivesse com uma arma na cabeça apontada e alguém me dissesse, esquece a Suzana se não você morre. Eu diria. Sim, esqueço. Não posso lembrar de quem não está mais ao meu lado. A vida sempre foi assim pra mim. Sempre amei aquilo que está ao meu lado. Me torno um escudeiro, um lobo feroz protegendo sua fêmea, seus filhos, seus, porque não tinha filhos. Aí ela ri e diz: - Você sempre recusando o destino com a tua velha mania filosófica do Acaso, da entropia..etc..e tal.
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