sábado, 27 de outubro de 2007

A Cotidianidade da Vida


Foto de Sophie Calle



UM RIBOMBAR:
a própria verdade
que entre as pessoas
surgiu,
em meio ao
turbilhão de metáforas.
Paul Celan em “Cristal”, tradução de Claudia Cavalcanti, Ed. Iluminuras.




Retomo o olhar à pre-sença dos tempos, lá no fundo da sala existe o obscuro da vida.
O que está no quadro é a imagem delimitada da exterioridade que brotou do interior.
O cotidiano da palavra, a perdição e o encontro das coisas ocultas.
Ali achei meus olhos a compreender imagens e sons que já tinha esquecido, mas acabo por encontrá-los no sentido existencial da cotidianidade.
É ilusório lembrar que contar os dias acumulo o cotidiano, como se tivesse próximo da verdade ontológica do ser.
Prefiro revestir as parte da casa com o tempo de vida, com o eterno ontem e o presente sempre antes que o amanhã bata à porta.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O Editor de Romances-(fragmentos) 2007


                                             Foto de Sophie Calle


“Minha pele se tornara um palimpsesto de sensações fugazes, e cada camada trazia a impressão de quem eu era.”                                                                                 Paul Auster


Eu vi a melancolia nesses anos todos rondando a casa dos sonhos, dos dias, as noites turvas, os namoros da juventude. Da adolescência mais atrás, minha infância. Mas nunca vi com tanta clareza como nesses últimos anos.
Saltimbancos divertindo os outros. Padres salvando almas. Jamais vi flores mortas sendo recolhidas dos parques por assassinos. Nunca sonhei com tantas idéias mortas e inúteis como nesses últimos anos.
Parece o fim. Mas não finda o fim das coisas, e tudo que já se esgotou pelas próprias mãos recomeçou em mãos alheias sem que eu menos pudesse esperar. Eu penso no primeiro amor dos meus 14 anos, nas primeiras ações dos primeiros dias de como a tristeza e como a alegria ao lado perfilou os sonhos e vigílias.
A insônia acompanhou as noites dessa essa época. Primeiro pelas noites mal dormidas de um reumatismo na perna quando tinha 15 anos, depois a realidade tomando conta da adolescência e tudo se desvendando, se mostrando na concretude sem realidade nenhuma, apenas as paredes dos dias cinzas de inverno.
Agora as noites se acumulam em minha vida e cada noite é igual ao sol que nasce todos os dias, mas a solidão acompanha minha insônia como a única e verdadeira amiga ao meu lado. O certo que é esse imaginário é o remédio para o medo, afugenta-o nas horas inesperadas.
Agora conto com os teus dotes culinários, beijos lânguidos e molhados. Deixamos para trás o Brasil, o buraco deixado do cigarro em minha cama. Um país distante. Um cálice quebrado na sala, um livro que levou emprestado, um CD que roubei de sua casa e as notas dos perfumes que comprei e que nunca saíram de minha casa. Nossa última noite no país foi como uma cantata noturna que tirou o nosso sono até o segundo final da despedida. Era abril.
Na França vivemos a maior parte do tempo inventando coisas para fazermos nas horas vagas. Minhas aulas são apenas seminários e ainda por cima você cuida de crianças numa casa de americanos próximo de nosso apartamento. A única a falar inglês. Isso é um alento. Não sei dizer nada além de um francês precário.
Você costuma dizer - Paris nunca nos cansará. O dinheiro é suficiente para os dois e ainda resta alguma coisa para as viagens de reconhecimento da velha cultura e podermos entrar os séculos adentro.
(Postado em 23 de outubro de 2007)


domingo, 21 de outubro de 2007

O tempo das entranhas


Foto de Jean Baudrillard



“Abrindo à tarde as órbitas musgosas
— Vazias? Menos que misteriosas —
Pestaneja, estremece... O muro sente!”
O Muro de Pedro Kilkerry

Retirando os espinhos do corpo
Dezenas de anos que ficaram encravados na pele
E mais anos e anos que morreram com o corpo que sofreu a humilhação.
Mulher talhada para o prazer do pecador, do torturador,
Que da Grande Guerra só restou a hospitalidade do seu intruso.
Do explorador, a dor, dos menores, o rancor para o resto dos dias e da própria injustiça o pecado vindo como água nas cisternas dos altos da cidade até o vão entre o muro de Kilkerry.
És uma mulher fraca diante das injustiças, uma mulher egoísta diante do olhar choroso dos latinos, dos árabes, dos negros, das flores secas do deserto que não mais florescem.
Te perdi entre o torpor dos olhos sanguinolentos dos que fazem da verdade a suprema da corte o apogeu. Depois te encontrei novamente, nua, de um lado ao outro, aos olhos dos estranhos e só para nunca mais me esquecer, esquecer de tudo a recitar: “É onde a volúpia está de uma asa e outra asa...” de Kilkerry.
Releio “É o Silêncio”, poema vindo das mãos de Augusto de Campos, em que Kilkerry me traz à lembrança de vê-la nua na sala:
“É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha”.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007


Foto de Carlos Martins "Olhos de Juliana"

O encontro através do espelho:


A dor no espelho esperando sua vez,
A solidão em presença na espera
É a distância quando dança,
Na presença dos teus olhos que falam baixinho sobre a ausência dos meus dias.


O encontro nas ruas:

Caminhava perdidamente, enlouquecido pela falta da língua alheia, da boca de outro, da maquinaria das linguagens em minha vida, da vida de um corpo com signo, de uma voz feminina em minha vida.
Saí de uma casa e fiquei na espreita do medo da solidão, mas nada disso poderia me alcançar diante de todas as perguntas sobre as inexeqüíveis palavras sobre a liberdade.

O encontro na vida:

Olhava perdido em sua vida, a solidão sempre se transformando, vagueando, removendo a dor com os dedos das cores.
Sei o que fazer delas diante de nossa cumplicidade que busca um lugar para estarmos nos próximos anos de nossas vidas.