domingo, 21 de outubro de 2007

O tempo das entranhas


Foto de Jean Baudrillard



“Abrindo à tarde as órbitas musgosas
— Vazias? Menos que misteriosas —
Pestaneja, estremece... O muro sente!”
O Muro de Pedro Kilkerry

Retirando os espinhos do corpo
Dezenas de anos que ficaram encravados na pele
E mais anos e anos que morreram com o corpo que sofreu a humilhação.
Mulher talhada para o prazer do pecador, do torturador,
Que da Grande Guerra só restou a hospitalidade do seu intruso.
Do explorador, a dor, dos menores, o rancor para o resto dos dias e da própria injustiça o pecado vindo como água nas cisternas dos altos da cidade até o vão entre o muro de Kilkerry.
És uma mulher fraca diante das injustiças, uma mulher egoísta diante do olhar choroso dos latinos, dos árabes, dos negros, das flores secas do deserto que não mais florescem.
Te perdi entre o torpor dos olhos sanguinolentos dos que fazem da verdade a suprema da corte o apogeu. Depois te encontrei novamente, nua, de um lado ao outro, aos olhos dos estranhos e só para nunca mais me esquecer, esquecer de tudo a recitar: “É onde a volúpia está de uma asa e outra asa...” de Kilkerry.
Releio “É o Silêncio”, poema vindo das mãos de Augusto de Campos, em que Kilkerry me traz à lembrança de vê-la nua na sala:
“É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha”.
Postar um comentário