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domingo, 30 de agosto de 2020

Só a Gil


       Teatro Municipal de Rio de Janeiro - 2012

 

“Como eu aqui agora

Pensando sobre o além

Já não haverá o além”

Gilberto Gil

 

 

 Como é bom te ouvir, te ver Gil, é bom ver Gilberto Gil, te sentir, ouvir a voz, sentir o veludo de tua voz da pele na música. Deslizar nos sentidos. Como é bom sentir tua presença, a infinita paixão, o amor quântico, o riso protetor de tua voz, a melodia em meu caminho, o caminhar da tua vida na solidão dos caminhantes. Como é bom te ter, dentro, diante de ti no mais elevado prazer, gozar te ouvindo. Vendo-o cantar, nesses anos todos de minha vida senti mais o humano de tudo que vivi.

Como é bom preparar meus dias, ouvir tua voz no fundo, no quarto ao lado, no soluço do amor, na viagem que não acabou, na consideração de um dia ter sido o que sou. Como é bom poder abrir os olhos e saber que existe, que me acompanhou durante esses anos todos que vivi, nos amores que tive, nas fugas que fiz, nos adeuses que sempre te ouvi. Me acompanha na distância da poesia que é onipresente. Passei diante de uma igreja, resisti, não casei, pensei em ti, e te oriente rapaz, o amor desapareceu, não fui para o Japão, perdi o amor. Amei mais, tanto que nunca deixei de ter essa capacidade de me procurar, encontrar Gil dos prazeres, dos mortais o bem melhor do sentir sem o medo de ir, de continuar no caminho do desconhecido.

A música, a lanterna que abre espaço na escuridão, a companheira da insônia, da fuga dos excluídos que se alimentam de luz. Partir deste fim ao início de tudo. 




quarta-feira, 29 de julho de 2020

Trajeto




“Somos poetas no silêncio da introspecção.”
Juremir Machado da Silva

 

A ideia fluida corre ao vento, ao sol queima o lado sombrio,

a vida se oculta do corpo que passa ao tempo.

Tão longe da dor, tão próximo do fim,

o tempo esquece de tudo que é humano, desintegra-se na natureza.

Desde a remota lembrança, desde o primeiro beijo, a vida foi intensa,

a gratidão é compartilhada na solidão deste olhar guardado.

A caixa está fechada, o tempo pode esperar, o amanhã renascerá,

a vida passa pelos sentidos, a linguagem ganha força, o sonho é filme, a trilha é o elo entre a compreensão e o poder viajar para dentro do mundo.

Estamos ainda a olhar, aprender que viver é mais que uma intelecção da racionalidade.

Sem a solidariedade nosso orgulho não se salvará. O domínio é eminente, está preso na liberdade provisória, o trajeto do caminhante se refaz no confinar.

Amanhã o porto será a porta de saída, o retorno ao mundo.

 


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Outono

                           Foto: Reprodução/TV Tem



Os soluços finos
Dos violinos
De outono
Ferem minha alma
Com a lânguida e calma
monotonia do sono.
Paul Verlaine
(tradução de Juremir Machado da Silva)

Meu amor é uma flor perdida na escuridão, eu sei de tudo e nada disse que sei nada sobre a vida. Chegada a hora de me manifestar, a razão anda perdida, os fanáticos percorrem os corpos. Eles são o fundamento desta pobreza de espírito, ainda ando devagar, quase correndo, e a fronteira é parte da vida. Devo ir adiante sem olhar para trás, devo ir avante remoendo a linguagem, desopilando o espírito? Tenho que escutar a sabedoria do velho sentado à beira da estrada, logo em frente a um bar, cuja placa deixa claro aos viajantes: “Atendemos só os filhos de Deus”. O velho olha-me e diz que não é para levar a sério, que entre e compre o que bem quiser, pois o filho dele é só um fanático, não entende nada da vida, só dizer que é o que ele quer que seja, que eu compre e caia fora. Antes que ele percebesse já tinha partido e o velho me comentou: “Vai, meu caro, Deus está dentro de ti, ou não. Não importa, a fronteira é logo ali adiante”.
Tenho que ir embora, enquanto o trem não aparece, olho para todos os lados, o que mais me encanta é o céu, perdido me vejo na clareza da vida. Depois da cancela, depois de uma coxilha, estarei na estação do outro lado, feliz e triste, à espera do trem.
O Vazio dos outros me encantava, não mais. Dou o adeus na solidão, não gostaria de estar na estação sem os amigos. Eles já partiram. Tenho medo e me sinto feliz por ir ao encontro de todos. Agora é tarde, dizia minha avó, e ela partiu antes de eu mesmo ter nascido para o mundo. Quando eu ainda chorava em sua cama, ainda ouvia sua voz. Era apenas uma criança. Aprendi a amar com a despedida sem um diálogo. Soube que eu ficava por perto. A solidão marcou minha vida. A fronteira está logo ali.

Ranhuras da vida

“... acordou no cume de um sonho que se eleva no céu, como no cume de uma onda. E, subitamente, não se recordou de mais nada.” Ricardo Guilh...