segunda-feira, 25 de abril de 2016

Silêncio

     Rouen - France

“...você se dissolve numa imagem do nada. Você come.”
Paul Auster


Como dar conta do silêncio sem acordá-lo do vazio em que está? Todo o recipiente do pensamento está no acontecimento único de estar tomado de uma quietude, de conteúdo, de imagens e cores. Todo o pensar é uma linguagem que escapa do controle, é um signo que diz; mostra o quão o vazio diz tudo sem mover o pensamento do silêncio. Por isso, o silêncio é a melhor maneira de estar sintonizado com o que está acontecendo dentro dos espaços. Do espaço imaginado. Entre as folhas de outono e o que restou do verão, entre chuvas e vozes, ouço o silêncio que transborda. 

domingo, 24 de abril de 2016

Mudança de ar

 

“...Um e Infindo,
destruído,
eu-truído.
Luz havia. Salvação.”
Paul Celan

Isto não é um poema. A poesia é para lembrar o tempo difícil que está para começar, o tempo em que o livro deixará de ser o livro que ilumina. O livro é que clareia ideias, que faz viajar os corações dos leitores a outros mundos. Estaremos em outro tempo? A escuridão das ideias me assusta, temo pelo fim do espaço em que tudo pode ser dito, lido e compreendido, em que o que valerá são os restos de pensamento. Quase nada! Apenas por ser lei. Lei da exclusão, é que terá legitimidade. O mundo é esse eterno queimar, esse esquecimento do que é estranho ao Outro, o que não faz parte do meu pensamento, para os inquisidores faz parte do mundo. Eu preciso de todos os pensamentos para poder escolher meu livro preferido, meu filme, a minha música. É preciso existir a distância para poder ver o que está por perto.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

O segredo





“A um ele confia uma coisa e confia outra coisa a outro, certificando-se de que eles jamais irão comunicar-se entre si.”
Elias Canetti


Vivemos num mundo onde o segredo deixou de existir, em que tudo o que é pensado, antecipadamente, já é sabido. O segredo é o lugar em que o indivíduo se submete à verdade daquele que sabe calar. Nas ditaduras o segredo é a vitalidade dos que sabem mandar, e principalmente dos que temem por algo que foge do seu controle. As massas alardeiam, o poder consente o seu silêncio em fúria. O poder mata o Outro com seu segredo, a massa divulga e joga o corpo aos leões. Todo segredo pode ser para o Bem e para o Mal.

O calar dos que recebem ordens é fruto do bom entendimento entre o que sabe mandar e o que sabe seguir as regras de forma ordeira. Esse fantasma jamais deixou de existir. As ditaduras de Direita e de Esquerda são o espelho dos que entendem o calar. Canetti demonstrou que o mais profundo dos segredos “é o que se desenvolve no interior do corpo”. Por estas bandas o que mais se sente no ar é o palavrório dos que falam e falam, mas calam quando deveriam se manifestar. Todo homem que fala demais é certamente o que tem a informação em seu excesso. O certo era ter um pouco de desconfiança, mas todo que demais se cala, deveríamos suspeitar ainda mais. Canetti observou que o segredo dos que calam é a certeza de sua sábia dedicação e inteligência de guardar o segredo dos poderosos, do outro lado, os que falam demais, também, podem estar entregando o ouro aos silenciosos donos do Poder.

O segredo, aquele que detém o poder sob o seu comando, consegue municiar o presente, ele mesmo é o que mais sabe preservar o segredo. Ao mesmo tempo, que tem o controle sobre o segredo, ele não consegue na sua amplidão ter o controle dos segredos existentes no tecido social. O ato de dissimular é propriedade de poucos que sabem manter o sigilo do seu lado. Aliados do silêncio, seus propósitos nunca deixam que o seu segredo se iguale aos demais, pois ele, o que controla, sabe medir o quanto o segredo que detém é preponderante ao imaginário social. 
Imagem: Parque Güell - Barcelona

terça-feira, 12 de abril de 2016

Compreensão e Interpretação



    Imagem: Luis A. P. Gomes

“A interpretação se funda existencialmente na compreensão e não vice-versa.”
Martin Heidegger


Estamos num momento histórico do Brasil que precisamos compreender bem os acontecimentos, pois o ato de interpretar passa pela compreensão de todos os acontecimentos do cenário político do país e que servem de prato para os esfomeados que mais regurgitam suas interpretações, ou menos conseguem compreender o momento histórico devido à fome de interpretar. Não é só a política. O Brasil não consegue mais se compreender. Está longe de ter a consciência do que está realmente acontecendo. O velado de verdades autoritárias surge como explicações para legitimar e consolidar uma ordenação de ideias irrefutáveis.
Uma boa parte da mídia sabe interpretar aquilo que não consegue compreender, ou melhor, se tem a capacidade de compreensão se ilude com suas próprias intenções ideologizadas de compreender o que está diante de si. Consegue apenas interpretar o que está no fundo das coisas. Se soubesse ver que o que está na superfície é parte do todo, certamente não se valeria da linguagem mais rasteira de apontar o caminho ideal, de nomear sua linguagem como cura e verdade, abdicando o essencial, o que está para sempre ser pensado e construído a partir da compreensão de um problema, neste caso, de fatos arrolados na vida política e social do país. A mídia tem esse lado, um lado de outras partes existentes, de atribuir verdade em suas interpretações, sem mesmo saber o que está por todos os lados do ato de compreender.

Para Heidegger interpretar não é simplesmente se valer do conhecimento do que se compreendeu, é, isto sim, preparar as vias possíveis que estão na base da compreensão. A melhor maneira de compreender, por exemplo, os acontecimentos, é estar no mundo, no cotidiano, é estar inteirado do melhor é do pior dos mundos, mas, simplesmente estar em consonância com o “mundo da vida”. Os exemplos de interpretar os acontecimentos podem passar por princípios filosóficos que diferem da tradição hermenêutica lançada sob os olhos do século XX, mas que ainda hoje não desabitou o pensar sobre o mundo.

Parte I - continua

domingo, 10 de abril de 2016

O tempo das palavras



“O modo de temporalização em que a atualidade ‘surge’ funda-se na essência da temporalidade, que é finita.”
Martin Heidegger

Ando sem o meu “tempo” para escrever, é como uma doença, andar em busca do seu próprio tempo, quase me perco nesta procura. É como estar em alto-mar, perdido, em busca do tempo, uma saída da imensidão, a procura enlouquecida que nunca nos leva a nada. Eu sei. A poética está perdida. O texto perdido soa como se fosse palavras, músicas sem autoria, sai da boca, desarticulado se perde na imensidão. O tempo não é mais imponente do que se pensa ser quando intuído. É o movimento que faz do tempo esse mar sem saídas, a imensidão não me convence da eternidade. Ando em busca do Nada.
O tempo que busco não é de ninguém, mergulho nas palavras que se reúnem nas águas do pensamento. Consigo ficar a frente do barco, olhos perdidos na escuridão, a luz que vem do fundo, mar e céu fazem o ritmo da escritura. A palavra é um segredo ou é a bússola que desata os sentidos que se perderam? Andar sem tempo e buscar a infinitude dos sentidos parece ser o mesmo absurdo do que querer um mar sem segredos.