segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Lazarus





Ele disse “Olha aqui, estou no céu, tenho cicatrizes que não podem ser vistas”.

Ele é um visionário, um pássaro livre que voou para o céu. Migrou do mundo para o distante e profundo lugar, nos corações. Foi visto trocando de pele, de cabelo, de roupa, foi visto nas ruas de todas as cidades, nos cafés, nas redes, foi visto no caminho do mar, da noite, foi visto de carro atravessando a ponte, foi visto lendo um livro no aeroporto. Está marcado na parede com suas estrelas, sua última aparição, ainda hoje (sempre).

domingo, 10 de janeiro de 2016

Beijo no Cristal


     Anselm KIEFFER – Melancholia, 1988

“Vai
Para o olho,
Para o úmido.”

“o mundo, um cristal em mil
Irrompeu, irrompeu.”
Paul Celan

Quando eu começo, o fim chega ao começo,
O beijo é o toque leve da vida, a profundeza,
O sonho e a dor no desejo.
O fim, o toque no teu céu.

A língua ávida, afiada para a vida,
O fim da estrada que avança ao léu,
Sumir nesta boca é correr o risco de viver,
De andar e desenhar com os olhos no rio,
O que desce e molha até o fim do mapa,
Avança sem trégua ao corpo.

A cidade é o espelho do mar que avança,
A tela que apaga a cor do dia, o último sol,
O brilho na janela do olhar,
Uma luz entre as pernas escoa na escuridão.

Os lábios no copo, o mundo entre mãos,
Um sinal de vida na barricada das margens,
A última olhada é na mancha que surge ao longe,
Olhar se perde na tristeza das águas.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O Olhar de Celan



“por onde ela quer descer, a estrela:
para embaixo nadar, embaixo,
onde se vê cintilar...”
Paul Celan

Devir é transformar o Ser no que é,
Ser é além do vir a ser,
Nadar é olhar o rio,
Celan em poética do sentir.

Ver é o Ser que atira na vida, água,
A expressão da contradição que molha,
O manto, o corpo se move, sentido,
A projeção da linguagem no absoluto, a morte.

Devir é o velejar, o pensar no lago,
O Nada é o descontínuo cruzar da diferença,
O corpo é mais rápido que o olhar,
Atravessa a margem, é o descobrir o lado seguro.

A lógica da vida é o sentir, descreve o conceito,
É o que está na essência,
É o que trata do Ser, a expressão do
“ondear das palavras errantes”, a diferença.


É tudo mais prazeroso, o que se lê com calma, a alma do absoluto desejo do leitor, o prazer de ler é quase Deus, retorna à compreensão ao texto, tudo faz sentido. Ao interpretar o texto, ao ler o poema, esse é o momento mais apropriado para se orgulhar do esforço, o corpo agradece, o todo está presente. Os olhos podem cansar, mas a leveza das pedras na leitura dá sentido ao sentir o melhor das coisas.
Paul Celan, para o escritor Paul Auster é “o melhor poeta do pós-guerra em qualquer idioma”, me uno ao Auster no diz o melhor dos poetas. Leio e releio Celan com o renovado olhar que se inicia a cada ano que surge em minha vida.



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Analítica da procura

       

“Somos todos desconhecidos para nós mesmos, e se fazemos alguma ideia de quem somos, é apenas porque vivemos dentro dos olhos dos outros.”
Paul Auster
“...porque a verdade total não existe para o homem e porque essa ilusão o paralisa.”
Karl Jaspers

Pode alguém conhecer outro alguém, sem menos saber seu passado, o histórico do tempo que demarcou sua vida, esses dois vierem a ser tão próximos, como um dia poderão ser perdidamente juntos no tempo, até mesmo distantes, um cada seu lugar. Essa poderia ser uma pergunta, agora é uma assertiva em relação ao que estou a pensar em relação à música.
O começo sobre uma expressão da vida, mesclo outras formas de sentir, discorro sobre a linguagem que compõe esse pensamento, melhor, sobre o que o pensamento está se envolvendo. Procuro cuidar os caminhos incertos em que levo a reflexão, nem sempre consigo achar uma saída. Talvez aí a diferença da reflexão com a genialidade da criação. Ainda ontem vi um comentário de um diarista de esportes falando sobre o “acaso” de um passe, de um lance de mestre de um jogador. Ele resumiu, que do gênio saí coisas que para os outros poderia ser uma jogada de sorte, um erro que se transforma em caminho para o lance que a imagem irá decifrar como maravilhosa, no caso deste lance, para o comentarista, foi dos pés que a genialidade driblou tudo e se transformou numa pequena obra-prima.

Retorno ao caminho da linguagem que parte da música, que intercambia com outras formas de perceber, de narrar, melhor, de ver com a narrativa que vai do abstrato à forma, onde o conteúdo é visto com clareza.

É como um filme em que a pessoa assiste e se perde nele, se perde apaixonado, entre signos, o desenho das letras. Os vitrais a distância é o caminho dos olhos, entre as imagens, a escritura ganha um aliado, o repouso da criação sobre o tempo que se perde nas ideias. Então, o roteiro se perde mais ainda, quando se consegue entrar na história as coisas se encontram, fechar do texto na imagem na ideia que não deu conta de tudo, mas o todo é uma parte apenas do que se pensa. O conteúdo passa a fazer parte do seu cotidiano momentâneo. Se pode tudo, além daquilo que se tem medo. “Todo questionamento é uma procura.” M. Heidegger.