sexta-feira, 3 de abril de 2015

Filosofar sobre o lance de dados

     Montez Magno- Da Série Um lance de dados, 1973


“Os pontos singulares estão sobre o dado; as questões são os próprios dados; o imperativo é o lançar.”
Gilles Deleuze


O que é a sorte grande? Essa é a indagação que me faço já um bom tempo, talvez desde minha tenra idade em apostar na vida venho à busca de um método. Claro, a vida é mais complexa se olharmos do ponto de vista existencial mas nada se compara ao imbricado mundo da sorte no jogo. Digo, o “jogo de azar”, o jogo de apostar em números, em apostar na intenção de ganhar algo. Esse algo pode ser acumulativo, pode ser o princípio do prazer e como alguns preferem que seja, a perdição de uma vida.  Chegam até profetizar, exorcizar sobre o tema, eu diria, quanto mais sorte se tem menos se ganha em qualquer coisa, até porque não sei o que é ter sorte, mesmo no ato de jogar ela vem de forma do acaso.

É um impulso que me leva a apostar em algo. Penso que o ato de escolha dos números é algo que se perde no infinito combinatório dos números, isso no plano de consciência do jogador. O jogador acha que está fazendo combinações, mas ao fim, se ele for mesmo vasculhar seu arquivo da memória encontrará centenas de vezes a combinação se repetir. Creio que o jogador tem medo do infinito, como também, do outro lado do pensar, tem medo da morte. Se nada existir, aí o jogador se ferra de vez. Por isso, inconscientemente ou não, um dia ele acaba se repetindo. O jogo já faz parte da vida do jogador assim como da vida do não jogador, daquele que abomina o jogo por achar que é jogar fora suas energias em algo que não lhe trará nada compensatório. Para o Bem ou para o Mal, o jogador, é uma espécie de crente que já não acredita mais em nada, e apenas os números podem lhe dar alento. O não jogador, esse olha de longe, mas quando vê um jogo de alta cifra no painel que diz ‒ aqui é a sua chance de se arrumar na vida ‒ é o momento de que nadar é não mais morrer na praia, lá vai ele apostar, entre milhões, querer colocar no bolso os milhões do “azar”. É nesse momento que o não jogador entra no páreo... se triplicam até as últimas possibilidades de jogar. Todos jogam...Quem será o ganhador? Não sei, só gosto de apostar e filosofar sobre a vida e o jogo. A morte é o fim do jogo. Como é bom driblar os imperativos.

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