domingo, 31 de agosto de 2014

O rio dos indignados

“A verdade surge justamente onde um ser separado do outro não se funda nele, mas lhe fala.”Emmanuel Levinas




Estava aqui sem fazer nada, olhava o rio que passa ao longe, olhava as pessoas em fuga, das águas do rio a correnteza levou suas vidas. O rio afoga, o rio salva. Medo de sua própria gente. Estava, como disse – de repente, vem um grupo entoando cânticos, um pouco marcha militar, música religiosa, com fome de bola, de livros sagrados, os que soletravam precariamente a própria língua, vociferavam a gosma da vida na calçada das ruas que desaguava no rio. Era tudo o que meus olhos não precisavam ver. Vi e sem chorar, ouvi um disco de Cartola para acalmar minha ira.
Estava eu aqui lendo um livro, passou em minha janela, ali na rua, a multidão de um homem e uma mulher a ronronar e esbravejar contra a presença das águas, contra a cor das águas do rio, que um dia mudou de cor, “porque essa não é como queremos” um deles dizia, então, “morra, seca, permaneça lá no fundo, no lodo mas não venha aqui em nossa cidade”....

Estava eu aqui, sentado na varanda, vendo e ouvindo tudo... me levantei, fui até a janela que era banhada pelo cheiro do rio, fechei a casa. Peguei o primeiro ônibus em direção ao mar, no primeiro navio, parti e fugi do grupo que desejava expulsar as águas de nossas vidas. Vou embora com o mar para outro lugar em busca de um outro rio, outra cidade livre da ideia de pureza no sonho de sua gente.
   

    Ana Ferray

domingo, 10 de agosto de 2014

Momentos possíveis do imaginário



    Firenze 


A escritura é o fortalecimento e também poder ser o que se esquece durante o passar do tempo. O tempo aqui como conceito diante do que é visto, do que tem diante dos olhos. Tanto faz olharmos por através da vidraça ou mesmo diante de um real supostamente dito, dentro do mesmo espaço, porque o imaginário criado nisso tudo é como o fogo que une o todo.
O que estava separado, o que estava distante acaba se unindo nas chamas. A escritura tem um pouco disso, mas se diferencia por sua unidade de ser, por sua fonte longe do imortalizado, é como Lyotard falou de Beckett que fez a “assinatura sofrer”, e ao longe – tudo tem a clareza e distância, dependendo dos limites próximos e da trajetória, olhamos os traços da escritura como quem se impressiona. Por vezes, no estranhamento, como se nada existisse além do que estamos vendo, mas para alguns nada é mais clarividente do que historicamente está estabelecido.

“O esquecimento do esquecimento não dá oportunidade apenas às encenações realistas, ele é essencial a qualquer metafísica: ao esforçar-se por apresentar a própria coisa, fundamento último, Deus, ser, a metafísica esquece-se de que a presença é ausente. Ter tudo presente é a bulimia do pensamento ocidental.”
Jean-François Lyotard
(Moralidades pós-modernas, p. 155-156, Papirus, 1996.)