terça-feira, 30 de agosto de 2011

O editor de romances - Noites - cap. 12

                                                     Carcavelos -Portugal

“Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias.”
Livro do Desassossego por Bernardo Soares– Fernando Pessoa
(Instituto Português do Livro, 1982)
 A noite sangra. Os cabelos ao chão se misturam ao vinho derramado. Suzana estava ferida. Ela chorava e dizia ter tropeçado em algo, e que de repente não viu mais nada, o piso era um abismo agradável de se deixar cair, um caudaloso e escuro oceano. O pior era não poder mais enxergar daqui no futuro, mas não poder sentir os objetos neste momento lhe deixou apavorada, não sentir a forma de todos os outros signos era inconcebível e de não poder fazer de uma estrada o lugar que a levaria ao farol. Esquecer de tudo era a solidão. Que gostaria de terminar seu livro, a linguagem não poderia abandoná-la, logo agora que tudo estava tão próximo do final. Portugal era um silêncio só naquele início de noite. O país tinha lá suas cegueiras, anos e anos que deu as costas ao mar e se virou para a Europa como se fosse um convidado de honra. Ninguém nos via, ninguém sabia da existência de Suzana, ela era como aquele povo, que vive ao lado do mar, que sonha em conhecer o desconhecido, que pelo menos o desconhecido lhe leva ao passado. Suzana queria o presente, essa a diferença. Um novo alento para vida, o povo precisava de alguém, mas dos olhos de Suzana é que não poderia nascer esse novo signo. Não agora que ela estava em condições de poder dar forma ao seu trabalho. Ela não é uma heroína. Depois, depois, uns dias após nossa partida, tudo bem, aí poderiam se valer do espírito dela, da beleza que por ali passou naquele lugarejo. Apenas os olhos da Suzana é que desconheciam a sua própria grandeza. (“Esqueço. Não vejo, sem pensar.” – F.P.)

domingo, 28 de agosto de 2011

O editor de romances - A imagem de tudo




A imagem de tudo

“Que o homem seja libertado da vingança.”
Nietzsche

            Os estilhaços do cristal do cálice foram direto aos olhos de Suzana. Ouvi um grito seco. Enquanto subia as escadas do velho prédio meu pensamento foi direto ao acidente, mais rápido que o fim dos amores, a queda. E as coisas podem mudar para sempre o rumo dos pés. Num só instante se pode silenciar para sempre a vida. Corri até a porta — lá estava ela atirada no meio do quarto, nua, com um corte no belo rosto, próximo do olho esquerdo, um pouco abaixo, talvez ela tenha batido na ponta de uma mesa e caído sobre o cálice verde. Olhei seu corpo imóvel, sem reação, apenas eu querendo fazer tudo ao mesmo tempo, procurando um telefone para chamar a emergência. Logo a Suzana, pensei, que quer tanto terminar seu livro de imagens sobre o mundo das imagens que estavam dando adeus a ela.
            Na altura dos olhos, um sinal de vida, um olho em movimento, a luz que surge da rua me faz vê-la se mexer, as mãos se abrem, o punho abre mostrando a vida, suas pernas em movimento lento me acalmaram. A vida ultimamente andava assim, como ela costumava dizer, lenta demais para ela, ela queria apressar o passo, o tempo, corria contra o tempo, queria chegar antes de acabar o ano terminando seu trabalho. Queria vê-lo sendo publicado. Minha tarefa era publicar o livro, minha tarefa era salvá-la provisoriamente do fim, não deixar que a música acabasse e não deixar de ir com ela até o cais da velha cidade, onde estávamos passando a temporada. O inverno era uma questão de tempo, mas a vida para ela era uma questão de oração ao tempo. Ela acordava todos os dias com a disposição de registrar sua última etapa do projeto. A imagem era um pretexto para ela continuar acreditando que mesmo sem ver no futuro, o futuro seria um presente dos deuses.

A Náusea - Jean-Paul Sartre


domingo, 7 de agosto de 2011

Montagem da Vida



“As posições estão no espaço, mas o todo que muda está no tempo”

Gilles Deleuze



A imagem-tempo está no movimento, a imagem começa em si mesma, o tempo é desfeito do nó dos cabelos esvoaçantes que se desfia na luz. O espaço assimila o corpo, engana os dias e as noites morrem no tempo. A imagem fica na retina para sempre. A pressa de virar a página está no som, a velocidade da fuga é mais ardilosa que as pernas, a língua que molha a página de cores se mistura com a vida.

A imagem-movimento está no presente e nada mais.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A minha esquerda - Edgar Morin




PREFÁCIO
Retornemos às origens
"Se você não espera o inesperado,
 não o encontrará"
Heráclito

            A esquerda. Sempre me inspirou repugnância esse A unificador que oculta as diferenças, as oposições, os conflitos. Isso porque a esquerda é uma noção complexa, no sentido em que esse termo contêm em si unidade, concorrências e antagonismos.
            A unidade está em suas origens: a aspiração a um mundo melhor, a emancipação dos oprimidos, explorados, humilhados, ofendidos, a universalidade dos direitos do homem e da mulher. Ativadas pelo pensamento humanista, pelas ideias da Revolução Francesa e pela tradição republicana, essas origens irrigaram o pensamento socialista, o pensamento comunista, o pensamento libertário no século XIX."
            A palavra libertário centra-se na autonomia dos indivíduos e dos grupos, a palavra socialista no aprimoramento da sociedade, a palavra comunista na necessidade da comunidade fraternal entre os humanos. Mas as correntes libertárias, socialistas, comunistas tornaram-se concorrentes. Além disso, no cerne do socialismo houve concorrência entre o socialismo estatal e o socialismo libertário, entre o revolucionarismo e o reformismo.
            Essas correntes entraram não apenas em concorrência, como também em antagonismo e alguns desses antagonismos tornaram-se mortíferos. Assim, é um governo socialdemocrata que aniquila a revolta espartaquista na Alemanha, é o comunismo bolchevista que, depois de tomar o poder, elimina socialistas e anarquistas, o que o comunismo stalinista continuou a fazer ainda mais radicalmente por toda parte onde se impôs. Foram o Komintern e o Partido Comunista alemão que, em 1931-1933, denunciaram a socialdemocracia como um inimigo pior do que o nacional-socialismo. Foi a Espanha republicana que no meio de seu combate contra o franquismo, estimulada pelo comunismo, elimina o anarquismo catalão e aragonês, bem como o esquerdista POUM, Partido Operário de Unificação Marxista. As frentes comuns, as frentes populares, as associações da resistência não foram senão momentos efêmeros. E após a constituição da unificação do programa comum, a vitória socialista engendrou a asfixia do Partido Comunista com um beijo de morte, cujo habilíssimo estrategista foi François Mitterrand.
            Essa é a razão pela qual sempre combati (em vão) o A esclerosante e mentiroso da esquerda sempre reconhecendo que existe uma unidade de esquerda nas origens e aspirações.
            Constatamos agora que as aspirações de esquerda sempre se fundaram na obra de pensadores. As ideias Iluministas de Voltaire e Diderot reunidas às ideias antagônicas de Rousseau irrigaram 1789. Marx foi um pensador extraordinário que inspirou simultaneamente a socialdemocracia e o comunismo até que, integrando as críticas de Bernstein, Kautsky e outros, a socialdemocracia se tornou reformista. Proudhon foi o inspirador de um socialismo não-marxista. Bakounin e Kropotkin os inspiradores das correntes libertárias.
            Somados aos de Tocqueville, Max Weber, Freud, os pensamentos desses autores nos são necessários, mas insuficientes para pensar nosso mundo. Somos compelidos a empreender um gigantesco esforço de repensamento que possa integrar os inumeráveis conhecimentos dispersos e compartimentalizados a fim de considerarmos nossa situação e nosso futuro em nosso universo, em nosso planeta, na biosfera, em nossa história. Cada um desses pensadores pode e deve continuar a nos inspirar, mas mesmo - e sobretudo - o pensamento do espantoso Marx apresenta carências fundamentais e insuficiências para se compreender e diagnosticar o curso da História nos séculos XX e XXI. Cada um deles não apreendeu senão uma porção, um fragmento da realidade humana. É para reconhecer e remediar essas deficiências e lacunas que proponho o texto Em busca dos fundamentos pedidos.



Fragmento do livro "A minha esquerda" de Edgar Morin
Editora Sulina, 2011
Capa: Eduardo Miotto
Tradução: Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco