domingo, 28 de agosto de 2011

O editor de romances - A imagem de tudo




A imagem de tudo

“Que o homem seja libertado da vingança.”
Nietzsche

            Os estilhaços do cristal do cálice foram direto aos olhos de Suzana. Ouvi um grito seco. Enquanto subia as escadas do velho prédio meu pensamento foi direto ao acidente, mais rápido que o fim dos amores, a queda. E as coisas podem mudar para sempre o rumo dos pés. Num só instante se pode silenciar para sempre a vida. Corri até a porta — lá estava ela atirada no meio do quarto, nua, com um corte no belo rosto, próximo do olho esquerdo, um pouco abaixo, talvez ela tenha batido na ponta de uma mesa e caído sobre o cálice verde. Olhei seu corpo imóvel, sem reação, apenas eu querendo fazer tudo ao mesmo tempo, procurando um telefone para chamar a emergência. Logo a Suzana, pensei, que quer tanto terminar seu livro de imagens sobre o mundo das imagens que estavam dando adeus a ela.
            Na altura dos olhos, um sinal de vida, um olho em movimento, a luz que surge da rua me faz vê-la se mexer, as mãos se abrem, o punho abre mostrando a vida, suas pernas em movimento lento me acalmaram. A vida ultimamente andava assim, como ela costumava dizer, lenta demais para ela, ela queria apressar o passo, o tempo, corria contra o tempo, queria chegar antes de acabar o ano terminando seu trabalho. Queria vê-lo sendo publicado. Minha tarefa era publicar o livro, minha tarefa era salvá-la provisoriamente do fim, não deixar que a música acabasse e não deixar de ir com ela até o cais da velha cidade, onde estávamos passando a temporada. O inverno era uma questão de tempo, mas a vida para ela era uma questão de oração ao tempo. Ela acordava todos os dias com a disposição de registrar sua última etapa do projeto. A imagem era um pretexto para ela continuar acreditando que mesmo sem ver no futuro, o futuro seria um presente dos deuses.
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