terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Bilhete na escrivaninha




Adeus à fúria, ao voo cego dos olhos escuros,
Das crinas revoltas que viraram penas,
De sedas sem brilho na beleza dos dias,
Da voz livre que o tempo prendeu aos sonhos,
Das pernas tatuadas que ficaram no tempo mentiroso,
De todas as cores que morreram nas águas do banheiro sujo,
A sombra úmida das paredes velhas de uma solidão de Sena.

O som volátil do adeus, uma certeza espedaçada na partida,
O rio tragou o último cigarro, deu adeus.
O tempo virou mar seguro nos braços, olhos de fogo a escorrer no rosto.
Na estação nem um vagão partiu o soluço, as paredes eram mais antigas que os dois.
Depois de tomar conta da manhã fria, um café ao sol entre os dedos, nem um acordo de viajantes.
Um barco correu pelo corpo molhado da chuva,
Uma canção de humor abriu as páginas do livro,
E o filme foi a imagem que escondeu de todos. “Ela se esqueceu de me contar. Queria me contar, mas acabou se esquecendo.” P.A.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Fotografema - Ernest Hemingway





"Nada nosso que estás no nada, nada é o teu nome, nada o teu reino, seja nada a tua vontade tanto no nada quanto no nada."
Ernest Hemingway

"O fotografema flutua na incerteza. É a atestação de uma presença e o efeito de sua ausência."
Luciano Bedin da Costa


domingo, 9 de janeiro de 2011

A técnica dos cupins e o blogueiro kantiano





“Dois mil e quinhentos anos depois da tecedura de Platão, parece que agora não só os deuses, mas também os sábios se retiraram, deixando-nos sozinhos com nossa ignorância e nosso parco conhecimento das coisas.”
Peter Sloterdijk



Definitivamente o determinismo decretou que os blogs estão em crise, que as pessoas migram mais rápido que cupins de uma madeira a outra, que passam num movimento rápido à noite e que de durante o dia já se percebe que ali viveu um blog. Ali ninguém mais habitará a não ser o vazio de caracteres deixados. Assim penso, ou será que foram os blogs que migraram à noite para outro espaço em caracteres em uma necessidade causal, que no lugar onde existia uma linguagem restou uma pasta oculta e que um dia alguém ainda irá lembrar? Ou mesmo, posso pensar que onde existia a linguagem nunca existiu destino, que tudo é fruto dos que pensam em guardar apenas na memória e nem memória existe mais agora, a não ser que ficasse impresso e guardado na gaveta onde os cupins não pudessem abocanhar. Nem a nuvem consegue suportar a memória, ela exige demais, é altamente corrosiva, poderia muito bem acabar com o esquecimento, desmitificar previsões e mudar o rumo do que era um determinante e se tornar em fractais. O fim é o espelho da repetição diferenciada, não existe propriedade do que se espelha se não tivermos a velha crença de que a ideia combinada com a lógica dos acontecimentos só permanece se puder continuar corroendo as madeiras.