domingo, 14 de junho de 2009

Diálogos da noturnidade


Ninho Vazio de Daniel Burman


“À vezes é preciso restaurar as partes perdidas, encontrar tudo o que não se vê na imagem, tudo o que foi subtraído dele para torná-la ‘interessante’. Mas à vezes, ao contrário, é preciso fazer buracos, introduzir vazios e espaços em branco, rarefazer a imagem, suprimir dela muitas coisas que foram acrescentadas para nos fazer crer que víamos tudo. É preciso dividir ou esvaziar para encontrar o inteiro.”
Gilles Deleuze


A Película diz:
Antonio intoxicado.

Antonio diz:
Rsrsrsrs
Antonio abandonado e livre pela própria sorte

Película:
Antonio, o coitado.
hahaha

Antonio:
Suerte é que não me falta e depois disso ganharei o Sena
para mim e para a minha velhice.

Película novamente entra em meu fonema de vinho, agora sem roupa:
Olha, até que é uma brincadeira divertida, eu nua e você
desenhando meu desejo com a tua velhice que não tardará. Depois disso eu estarei perdida em seus sonhos. Para sempre!

Antonio não se recusa de entrar na imagem da Película:
Eu não poderei pensar na velhice antes de provar as tuas roupas. Sempre sonhei me vestir de teu sonho. Não roubá-lo, mas saber tudo o que você andou fazendo no século XX, o que sonhou, onde andará esse sonho? Quais as imagens que ainda existem em ti, quais as linguagens que vivem, as que permanecem vivas?

Película:
Hahahahahah. Não saberá, nunca saberá o que existe nas películas do século, em que você passou a maior parte do tempo me vendo em salas envelhecidas e que hoje nem existem mais. Hoje estou digitalizada em seu coração. Significa de um jeito o outro eu existo, mas não como fundamento único para a compreensão do mundo. Nunca fui isso, nem Deleuze, sinceramente, nem ele deveria ter acreditado nisso. Aliás, a filosofia só me alimentou como eu alimentei e dei de mamar a muitos homens e mulheres. Antonio, sei que você não nutre ilusões perdidas. O que mais quer?

Antonio não desiste:
Eu nunca brinco com as minhas profecias. Amanhã estarei na frente do cinema Bristol para te levar embaixo do braço até meu computador, meu cobertor, quero dizer. Hei de te roubar da sala de projeção. Agora apenas o signo, a imagem na escuridão da noite, a caminho de casa nesse frio não fugirá de meus bolsos, do meu gosto pela vida, por você.

Película:
Olha, sinta como ando que nem você ultimamente, cambaleante mas livre. Me vê em sua tela antes que o dia apareça. Um beijo, Antonio intoxicado, envelhecido pelo Sena que é ainda a sua juventude.
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