terça-feira, 14 de agosto de 2007


O homem nômade ergométrico (parte 2)


O homem nômade, ergométrico, é aquele que consiste em andar em uma esteira ou pedalar uma bicicleta ao mesmo tempo em que a atividade do coração está sendo monitorada com um eletrocardiograma em momentos de repouso do nômade. Ele é o mesmo que vive na rua, é notívago e de seu computador a única coisa que faz é construir palavras e observar o mundo que não lhe pertence. É o mesmo homem que não procura mais Eldorado, não por falta de tempo, mas por excesso de outras formas de ver o mundo e experimentar. Ele poderá estar sempre com um pé na estrada ou chegando ao mesmo lugar, onde nunca arreda uma palha para se mexer. Maffesoli dirá: “A aventura, assim como os imaginários, os sonhos e outras visões sociais, é um filão escondido percorrendo o conjunto do corpo social”.
O nômade ergométrico se comunicará com o mundo de forma aleatória, se um dia resolver ficar em casa cuidando, escavando, através do virtual, seu Eldorado, ele poderá sair no meio da noite ou plena luz do sol. Apenas para viver e mudar seu contato com os extremos do mundo exterior. Sem nunca deixar de ser errante, esse nômade poderá ficar trancado em sua casa conversando com todos os continentes e ao mesmo tempo se preparando para uma investida no cotidiano, no corpo social, na cidade, nos cafés. Esse homem poderá fazer de sua toca, seu labor e sem precisar resolver os problemas cruciais do mundo, ainda sim, poderá contribuir para despoluição do rio Tietê ou desmatamento da selva Amazônia. Ou melhor, tomar mate no brique da Redenção aos domingos sem tirar os olhos da tela e o ouvido do tempo que o consome todas as manhãs músicas que possam renovar as cargas de seu repertório. É a passagem do ato de representar diante da realidade para o simples e prazeroso ato de apresentar-se no mundo. O homem do século XXI sai de viagem e se perde, pensa na pobreza e alimenta diariamente o corpo com tudo aquilo que lhe dá prazer. Esse homem nômade é o que poderíamos dizer também o que Simmel via na condição humana e na perspectiva de um errante solitário, nomeado de flâneur por Walter Benjamin. Maffesoli transporta para o nosso tempo o flâneur do Baudelaire no errante nômade que testemunha e vive em todos os lugares, e ao mesmo tempo não é do espaço que flana um espectador é sim das horas vagas de seu tempo que mede entre os pontos imaginários de sua vida
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