sábado, 27 de maio de 2017

Inocência

                 Gustav Klimt - Three Ages of Woman - Mother and Child 



“Mas quanto mais me tornava transparente e leve, mais meus despojos cinzentos ganhavam consistência para seus sentidos fatigados.”
Pierre Klossowski



Imagino meu corpo além do meu corpo. Além, um pouco mais distante do que hoje sou. Bem antes, quando bem pequenino ao lado de minha mamãe. Bem ao lado, sentadinho em um banquinho, enquanto ela cuidava de minha avó enferma. Estava ali, ainda sem a consciência real das coisas, nada a perder, e o lado humano de estar à deriva da lógica da vida. A vida dos homens não existia. A inocência e a vida, brincava com o Nada: suprema maneira de ser apreendida pelo pequeno Ser. Uma alegoria do impossível, desde que, hoje, já não sei o que estava a viver. Construí esse mundo, através do imaginário de minha mãe, pude ir além do que hoje posso compreender.  
Falava sozinho, como um humano que ainda está a ver o mundo, o poente é mais distante hoje. Minha mãe cuidava de sua mãe, olhava-me com lágrimas de dor e felicidade.

Essa é uma imagem que não lembro por mim mesmo, é a recordação de relato que minha mãe volta sempre a me contar. Já narrou inúmeras vezes, não importa, estou sempre pronto para ouvi-la novamente. Todos os ângulos, a vida é sempre a mesma, o amor está dentro e fora dessa narrativa. O amor é infinito, a dor morre logo ali [...] outras narrativas.

“Dalgum modo outra vez e todos outra vez no olhar fixo. Todos duma vez como uma vez.” Samuel Beckett

sábado, 20 de maio de 2017

Técnica dos cupins e o blogueiro




“Dois mil e quinhentos anos depois da tecedura de Platão, parece que agora não só os deuses, mas também os sábios se retiraram, deixando-nos sozinhos com nossa ignorância e nosso parco conhecimento das coisas.”
Peter Sloterdijk

        Definitivamente o determinismo decretou que os blogs estão em crise, que as pessoas migram mais rápido que cupins de uma madeira a outra, que passam num movimento rápido à noite e que de durante o dia já se percebe que ali viveu um blog. Ninguém naquele espaço habitará mais, a não ser o vazio de caracteres deixados consiga ser a metafísica constante das linguagens trôpegas de uma modernidade cínica.
Assim penso, será que foram os blogs que migraram à noite para outro espaço em caracteres em uma necessidade causal, que no lugar onde existia uma linguagem restou uma pasta oculta e que um dia alguém ainda irá lembrar? Ou mesmo, posso pensar, que de onde havia a linguagem nunca existiu destino e significados em sua textura, que tudo é fruto dos que pensam em guardar apenas na memória. Nem memória existe mais agora, a não ser que fique impresso e guardado em uma gaveta imaginária onde cupins não possam abocanhar. Nem a nuvem consegue suportar a memória, ela exige demais, é altamente corrosiva, poderia muito bem acabar com o esquecimento, desmitificar previsões e mudar o rumo do que era um determinante e se tornar em fractais.
O fim é o espelho da repetição diferenciada, não existe propriedade do que se espelha se não tivermos a velha crença de que a ideia combinada com a lógica dos acontecimentos só permanece se puder continuar corroendo as madeiras.
As nuvens que alimentam e guardam memórias são raras hoje em dia. Nem um pouco de sentimentalismo, mas uma porção de devaneio nos permite esquecer o acontecimento, depois é crer que o agora é diferente do antes. Como diz o designer, “o que parece simples para mim, talvez seja complexo para outra pessoa” (Vitor Lourenço), mas o que é complexo nunca deixará sua complexidade pelo simples fato que o finalismo contemporâneo está mais para uma migração do que para uma etapa avançada do pensamento.     
O grau de complexidade é a luz de linguagens jogadas no tempo e para que alguém pessoa possa tê-la é não necessariamente poder tornar simples o seu grau de uso. E, hoje, definitivamente a imagem é apenas o cenário em movimento às linguagens que correm tempo das certezas. Para os fins dos determinantes e para novas crenças existirem serão imprescindíveis sujeitos privilegiados ou não. Estar rompendo e descobrindo a melhor maneira de desmitificar o destino é tarefa do pensamento.

(texto ampliado de 2011)