sábado, 28 de junho de 2008

O Amor, Maiakóvski, Morin, Caetano e Picasso


Picasso

Lembrei lendo Caetano Veloso sobre o que vê em Moscou, a arquitetura, o metrô, em que tudo parece “cafona” mas encanta e depois o museu Maiakóvski. Lembrei Gertrud Stein falando da influência russa em Picasso, isso em 1938, e lá estava a revolução em destroços, indo pelo tempo e ficando na cabeça de marxistas como se fosse o primeiro beijo. Ela escreveu quando Picasso dedicou seu tempo à escultura:

“A escultura negra era aos cubos, a escultura russa era redonda. Há ainda uma outra diferença muito importante: a escultura das pessoas, as suas feições, na escultura negra, têm uma dimensão normal; na escultura russa, a dimensão é anormal. Uma é pura, enquanto a outra é fantástica. Picasso, o espanhol é fantástico, A arte da Rússia é fantástica e pornográfica”.
Para depois ouvir Gal Costa cantando O Amor de Maiakóvski na música de Caetano
“Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias...”


E depois Edgar Morin, quando escreve sobre o stalinismo, lembra Nietzsche: “Que o homem seja libertado da vingança”(Nietzsche). Daí apostar na incerteza mais do que as verdades que os homens nos impõem. É preciso ressuscitar todas as manhãs em Moscou, Porto Alegre, Tóquio, Paris ou qualquer vilarejo perdido da Terra-Pátria.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A solidão e os livros


Rodin


Ouvindo Solitude com Nina Simone e não com a Billie como sugere o Paul Auster para se ler O Livro da Memória em Invenção da Solidão. O inverno na vidraça. Um vinho, audição de Erik Satie depois e a leitura da solidão que os livros nos jogam e nos tiram sem piedade, porque quem ama a piedade não conhece a dor da escritura cortando o rosto com o frio do Sul.
“Todo livro é uma imagem da solidão. É um objeto tangível, que se pode levantar, baixar, abrir e fechar, e suas palavras representam muitos meses, quando não muitos anos, da solidão de um homem, de tal modo que, para cada palavra que lemos em um livro, podemos dizer a nós mesmos que estamos diante de uma partícula, daquela solidão. Um homem senta-se sozinho em quarto e escreve. Quer fale o livro de solidão, quer fale de companheirismo, é forçosamente um produto da solidão.” Paul Auster em Invenção da Solidão

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Diálogos sobre a caligrafia




"Tudo aquilo que lhe era impossível pôr nos quadros realistas pôs com uma vitalidade extraordinária nas Duas mulheres caligrafadas.”
Gertrude Stein, 1938.


Quando tudo começa? Ao abrir seu notebook o diálogo se inicia. A psicanalista e o Homem Nômade.
Ela diz:
Bom dia
Ela diz:
Ontem estive lá na TV Comunitária da Província, Canal X, em um programa sobre as relações amorosas. Situação inusitada.

Ele diz:
Bom dia, isso é bom. O que era mesmo, uma entrevista?
Ele diz: Sim, sobre relações amorosas, como disse. A filha de um amigo que faz jornalismo e precisava de uma psicanalista e aí me convidou para participar.
Ele diz:
Aí é bom chegar com “Fragmentos de um discurso amoroso” do Barthes...Lindo o texto, para minha compreensão das relações amorosas mais um texto que contribui. O que você falou mesmo?

Ela:
Ah, gosto muito deste livro. Elas me perguntaram sobre as transformações no amor, no casamento, no papel do homem e da mulher...

Ele diz:
Transformações no amor, no papel do homem e da mulher?
Na minha compreensão não existe transformação nenhuma e sim um convívio em que as individualidades jamais se encontrarão e se isso acontecer, ótimo. Pronto, mesmo assim existirá o oculto, o que fica guardado em cada um, a não ser que se anule por completo para se chegar ao Outro, à completude das relações. Penso em coisa, a partilha. Compartilhar alimento e fundamentalmente o respeito na solidão do Outro...
Ele diz:
Não acredito e nenhuma forma idealizada das relações, talvez no acaso, no encontro de solidões e de extremos, desejo em relação ao mundo e aí caberá o Outro. Mas gosto de ver todos os lados. Atualmente ando na caligrafia de Picasso, na possibilidade, ou impossível que o pintor viu e pôs em duas mulheres num quadro. O vitalismo dele, tipo
"duas mulheres caligrafadas”, como sugeriu Gertrude Stein.
Ele diz:
Fui convidado para fazer um trabalho sobre o tema que perpassa as relações e pensei a partir dos olhares do pintor, do escritor, do cineasta e claro, o filósofo ficará de fora, porque ele suga tanto quanto eu (risos).
Ele diz: Mas não tenho nada para pensar agora e desenvolver esse trabalho.

Uma pausa e retorna:

Isso é o que tem de mais importante no momento, a morte das idéias me faz amar menos as coisas..

Ela diz:
Mas acho que para haver o encontro, o desencontro faz parte...sim é importante que a solidão se mantenha presente, não sei se necessariamente isto é ruim

Ele diz:
Mas sou de lua, com ascendente no caos cotidiano. Hoje à tarde ou amanhã aparecerão vários projetos (risos)
Ele diz:
A solidão é imprescindível para quem sabe lidar com ela, mas ela se aloja e busca muitas vezes preencher as outras partes deixadas pelo espaço do indeterminado, da falta do que se pode pôr lá. Talvez um filme, um livro, um poema de T.S. Eliot cairia bem, mas nunca sabemos o momento exato de preenchermos com a vitalidade das coisas. E aí, profundamente, afundamos na bergère.
“Elas eram na realidade cubismo, quer dizer, viviam sem qualquer necessidade de associação nem de emoção.” (Gertrude Stein)

Continua