quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

A descoberta do cinema em 2008


Foto do fime "Os Incompreendidos" de François Truffaut



Uma das coisas que me dão alento para continuar vivo são as descobertas. Primeiramente as nossas que ficaram guardadas, as reminiscências das imagens em movimento, do texto impresso aos olhos, dos beijos roubados e nada mais. Não tenho nenhuma ilusão nas raízes, na história, na cidade que nasci e nem na que morrerei. Segundo, porque não me interessa as pedras, as narrativas contadas pelos outros e como me ausentei de uma vez por toda disso, encontrei na memória, na história da ilusão do cinema a vida destas outras histórias. A imagem que não conta o real, que descobre as possibilidades e talvez por esses fios no tempo que irei encontrar a cidade onde nasci. Talvez um dia, talvez caminhando à beira do Sena, das ruas de uma cidade não vivida. Vi isso ainda no cinema Bristol, nos anos 80, do século passado. Com tempo construído em minhas idéias eu conseguirei chegar novamente ao passado. Nasço no tempo que termina e começa o outro. No livro que inicio e que me leva a outro e que joga às imagens adentro, às linguagens de um filme sendo novamente descoberto.
Essa passagem do Truffaut em entrevista no ano de 1971, sobre a descoberta do cinema e que me reporta a descobrir um filme novo à margem dos pretextos para se pensar o real naquilo que não tem mais nada de real.
“Percebemos melhor a extravagância das filmagens de cinema quando temos como personagem principal um ator que nunca filmou, pois redescobrimos quão estranho é esse metiê através de seus olhos, e mais ainda quando se trata de uma criança.
(...) Havia um garoto que nunca filmara. Numa das cenas, ele deveria entrar num quarto de hotel com Jeanne Moreau e acender a luz. No momento da filmagem, ao colocar a mão no interruptor ele percebeu que não era ele quem acendia a luz, mas um eletricista do lado de fora, então caiu na gargalhada e a filmagem teve que ser interrompida. Lembro-me disso como um incidente muito bonito: é a descoberta do cinema.”

Esse é o instante de como o filósofo português contemporâneo José Gil chama de levarmos em conta as "pequenas percepções",
“Ora, o que é próprio do olhar do artista e, em particular, do pintor é detectar relações de formas, de cores ou de texturas que o olhar comum não vê.”
Mas existe o cotidiano, o trivial, lugar onde a “imagem-nua” está na relação entre a composição e recomposição do tempo da descoberta do cinema.
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