domingo, 5 de fevereiro de 2017

Silêncio da letra

           Wu Guanzhong (1919-2010)


Cansei dos teus olhos,
de tua voz, a duração deste momento,
o movimento faz o tempo durar o sempre na imagem.
O breviário do solitário é catar os dias, então, do previsível, da atitude dos versos, a métrica é o fluxo do pensamento:
e o silêncio fascina.
Morrerei em Paris como César Vallejo e Celan.
O Sena que lava a textura do tecido,
palavras entre as pernas abrem-se às manhãs da cidade.
A poesia nasce da algaravia, da alma perdida, morrer em águas turvas.
O silêncio abre-se coberto de tardes tristes,
um beijo na beleza incessante dos olhos esquecidos dos
os amantes  que não se cansam de partir.
O silêncio fascina sobre o escrito.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Leitor anarquista da Filosofia Cristã

        Robert Doisneau 



“Quer dizer, no momento em que adentramos o espaço da memória, entramos no mundo.”*
Paul Auster

Gosto de ler os filósofos cristãos, principalmente os dos séculos XIX e alguns do XX. Assim, ao lê-los aprendo mais do que muita ironia vã da ignorância religiosa e fanática sobre Deus. Sou de fato um ser em movimento, mas o que nunca deixou-me impressionar é a latência reflexiva dos moralistas ao tratar da vida como se ela tivesse uma base sólida para todas os questionamentos. Escamotear a existência em nome de um ser superior. De fato, a vida é onde tudo se inicia e tudo se perde no fim. O acontecimento tem seu apogeu. Os observadores mais atentos, os desavisados e dispersos, porém atentos, a todos que param um pouco para apenas sentir e deixar o tempo passar ou ficar parado no ato de pensar. Éttienne Gilson escreveu:
O pânico que parece se apoderar dos apologistas sempre preocupados em não perder o último navio, é algo que lhes é natural, mas não deixa de ser inútil. Não há último navio. Da popa daquele no qual você embarcar, você verá outros três ou quatro se preparando para partir.**

Ou seja, prefiro a reflexão inteligente do que ardor de uma crença, de uma outra ordem de religião. Isso se aprende ao longo dos tempos. Quantos Tempos existe quando vive em uma só vida? Depende, não da crença, a meu ver, da capacidade que se tem de encarar a realidade sem temer que a ordem das coisas não gerida pelo fervor de uma crença, mas por circunstâncias que envolvem essa vida.

No caso dos exegetas, daqueles que dedicam sua vida a interpretar, a eles meu profundo respeito, mas nem com todos me sentaria para conversar, ouvi-los. Porque se tem algo que me deixa numa profunda dislexia é o tom professoral, é querer dar aula no mais alto grau da tonalidade e expressão teatral de um professor. Isso me tira do sério, então, prefiro conversar com os livros. O Éttinne Gilson é meu companheiro por excelência. Com ele aprendi a ler melhor textos filosóficos, a ouvir e, principalmente, recusar verdades e tons pseudoeducadores de alguns seres monocórdios. No final da última página de um Gilson, acredito cada vez menos na luz duradoura de uma Verdade única.

* A Invenção da Solidão. Paul Auster. Companhia das Letras, 1999.
** O Filósofo e a Teologia. Éttinne Gilson. Paulus, 2012.