domingo, 20 de novembro de 2016

Método do silêncio





 “Tudo o que se movia nele ainda jazia em trevas, embora já sentisse o desejo de contemplar em meio à escuridão coisas que os outros não percebiam.”
Robert Musil

A maldição nunca vem sozinha. Vem acompanhada do verme deixado pela Vida em algum canto deste país. Nesta cidade o fenômeno do verme é que ele, midiático, como seu ar de “estuprador do espírito”, observa o cenário em ruínas desmoronar-se no esquecimento. Decadência. Diante de uma obra que foi criada para identificar como verdadeira, certos feitos, pensamentos monopolizam e naturaliza a verdade midiática de um só Dono: o verme onipresente. Por ser a excrescência da realidade, de uma sociedade que se ilude com o passado imposto, a cultura da terra nem sempre é orgânica, raiz é a invenção do poder.

Um dia percebi que o silêncio do verme era sua arma para fazer com que o Outro fosse esquecido. Que o Outro morresse em seu próprio mundo, como se existisse mundos distintos, era preciso saber que um lado era nulo e, portando, devia ser esquecido de uma vez para todo o sempre. Assim, a exclusão e não existência faz parte de um falso cotidiano, o mundo dos iludidos é a vida que não cabe no bom convívio social.

Desci ao inferno, à terra, conheci os meandros do local, da profundeza, os rastros da superfície e do silêncio estratégico feito pelos vermes diante do diferente pensar, o que se valoriza como humano, demasiado humano. Voltei à realidade, com uma única arma, o silêncio salvou a ilusão. A razão não precisa estar do lado do verme para ser autêntica, não precisa ganhar nenhum prêmio para sobreviver entre os vermes e a Cidade. Pensei patentear o método do silêncio como antídoto, depois, a pessoa era só fazer terapia para não cair no lodo dos vermes. Criar um método de terapia através do esquecimento silencioso, poria dúvida no futuro, o mal dela nasceria, então, salvar algumas pessoas a não perder suas almas, em se deixar transforma-se em vermes, virou uma solução apenas do ato reflexivo.

O método não é invenção minha, está na natureza, serve a todos. Então, contra os vermes midiáticos, todos que se sintam injustiçados, qualquer tipo de exclusão... Usem o Silêncio e o esquecimento. É uma filosofia de vida, matá-los dentro de nosso possível ódio, depois deixar o tempo passar, e sem que percebamos − eles extintos − existirão apenas na cabeça do verme. O mal existe, estamos emergindo do silêncio e como Musil escreveu em O jovem Törless “A história nos ensina que só existe um caminho para isso: o mergulho em si mesmo.”



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Fenomenologia das imagens


                         

“As sílabas recolhidas pelos lábios — belo silencioso círculo — ajudam a estrela rastejante em seu centro.”
Paul Celan

Os sentimentos andam ao lado de nossa vontade. Nossos desejos não são alterações meteorológicas e sim psíquicas. São funções de nossas percepções e sonhos. Um cruzar de ideias que percorrem o tempo de nossa existência. Esse cruzar complexo, onde mora o único valor, o que pode nos manter vivos todas às manhãs quando acordamos. É o acordar do “trajeto antropológico” sob as imagens que circulam nosso Ser esse tempo todo. Sonoridade na dor, na despedida e nas chegadas das imagens. O encontro do vivido com o que buscamos mais adiante do olhar.
Meus sentimentos começaram antes do século XX findar. Bem antes, quando ainda sentia poder encontrar através das imagens todas as linguagens que fossem o expressar do cotidiano. O cotidiano lançou seus dados Mallarmaicos que impulsionaria as inspirações nos signos de hoje. Assim acordei pensando em Octavio Paz no seu Arco e a Lira, em que diz: “Não é a técnica que nega a imagem do mundo; é o desaparecimento da imagem que torna possível a técnica”.
As palavras tomam conta dos dias. As gerações, eu leio, incessantemente, me afasto a cada página lida. Fujo dos absolutos. Entrego-me incessantemente à diversidade da vida, da dor, das paixões.
As palavras são mais do que razões para se ter, pensar sobre os objetos e sobre as possibilidades da verdade. Muito mais, elas, agora, a linguagem, o signo me levou para o distante das utopias. Joga-me no deserto dos saberes, da desilusão e do fim de um tempo que se abre ao novo. De outros: do fim dos fins. Sempre a jogar, as palavras verdadeiramente à vida do fluxo e refluxo da dialógica dos acontecimentos.
Um olhar fenomenológico é posto acima disso, do que está dado, é um complexo religar as imagens do cotidiano. À deriva, ao sabor do presente e de todos os tempos, as imagens são verdadeiras como “as noites que fixam sob o teu olho”, escreveu Paul Celan. 

(Um blog, um espaço para o texto, pensamento, as ideias, todas as possibilidades de pensar no texto. Filosofia, literatura, arte, cinema, livros, o humano demasiado humano. Criado em 2007, sob forte influência de Barthes, depois de ter acabado de concluir meu doutorado, nasceu "em colocá-los numa maquinaria de linguagem".) 
        


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Trem do tempo

    Trem de Nice -França



Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastros; os pensamentos têm épocas de viver e épocas de morrer.” Robert Musil – O jovem Törless


Não tenho nada a dizer, o dito pelo dito é entediante,
Melhor ler do que dizer, melhor sentir do que falar,
Tenho muito a viver, o tempo chega ao fim.
Tenho algo a fazer, construir um mundo de imagens,
Tenho muito a colher, a vida foi longa,
A colheita é breve, a dor só existe na seca.
Choramos para nos alegrar, cantamos para acordar a noite.
A palavra escrita é o alimento, a voz é o vaguear no tempo,
O fim é o início de outras escritas, de vozes que não temem o fim.
Os dias perdem forças no tempo chega ao fim.
Deixo a negação para o momento do tempo que se perde,
Tenho tudo a ler, livros perdem o tempo único.
A leitura dos lábios é o signo que o rio perde no fim.
Um dia escrevo tudo, outro dia falo muito, a angústia me resgata no fim da linha. A vida é tênue.