sexta-feira, 19 de março de 2010

A antimetodologia


Capa: Eduardo Miotto

Este livro deveria chamar-se inicialmente Manual de antimetodologia: como pesquisar e escrever textos acadêmicos sem medo da ABNT e da CAPES. Não deixa de ser isso. Mas poderia induzir os leitores a imaginar que se tratasse de um manifesto contra todas as metodologias. É um texto contra as metodologias positivistas ou contra o positivismo metodológico. Na verdade, uma rejeição ao efeito perverso da ênfase exagerada na metodologia: o metodologismo, doença que faz da necessidade de método uma camisa-de-força. O título abandonado era também uma “pro-vocação”, no sentido heideggeriano do termo: uma maneira de fazer emergir a vocação profunda e essencial da metodologia: ser caminho e caminhada da descoberta.
Ao preferir o título O que pesquisar quer dizer. Como fazer textos acadêmicos sem medo da ANBT e da CAPES, optou-se por mostrar que este manual de antimetodologia é antes de tudo uma defesa de metodologias pluralistas, abertas, que ajudem a abrir caminho e não se tornem fins em si mesmas. Propõe-se uma metodologia, construída a partir de inúmeras fontes e áreas, capaz de ser utilizada amplamente nas ciências sociais, em especial no campo da comunicação. Este livro poderia, nesse sentido, ser intitulado Dispositivos de des(en)cobrimento ou Narrativas do vivido e do imaginário. Afinal, defende-se que pesquisar é descobrir ou desencobrir. Como uma metodologia que se respeite precisa ser resumida, a que é proposta aqui poderá ser chamada carinhosamente de DD ou NVI. Não fica bem?
O texto vai além da proposta de uma metodologia. Discute as condições de produção da pesquisa no Brasil, aplica a metodologia proposta em alguns casos e atreve-se, com senso de humor e ironia, a relativizar o “terrorismo da ABNT”, que tanto apavora estudantes e jovens orientadores, chicote normativo usado muitas vezes como único parâmetro de avaliação por juízes que parecem carrascos obcecados por normas que soam, com frequência, arbitrárias e inconstantes. Faz também ponderações sobre o sistema de avaliação da CAPES, instituição com “poder de polícia” sobre as pesquisas. Mais do que incitar à desobediência acadêmica, defende o difícil equilíbrio entre sensatez, ousadia, cooperação, competição e liberdade. Pesquisar é um exercício de des(en)cobrimento.