terça-feira, 26 de março de 2013

Londrinalha


Publicado em 2013.

E a música em teus olhos é a primeira estação desse ano, do ano que é mais um entre os anos dos mortais, é o primeiro beijo em janeiro, tenho o gosto na boca, a vitrola é um alarido de suor, por isso é o brinde, é o ano que se inicia, os teus 66 anos no tempo que avança entre os ouvidos da América e todos os lados da Terra-Pátria. O lado dos olhos é como o ressoar da voz na canção dos meus sonhos. Quando garotinho eu via-ouvia o som no fundo da velha garagem, jovens, irmãos dançando, se drogando, amando ao teu som, depois, um dia, eu ali, noutro lugar, nas ruas da cidade, da minha Porto Alegre, a te ouvir, a drogar a vida e alimentar meus olhos de luz, em todo lugar eu via e sentia a tua voz como na infância, como nos sonhos dos irmãos, todos viveram, muitos já foram, outros estão no caminho da velhice, eu sou a melodia da infância.





"Cartazes na rua. Sou a favor. A única ideia criativa que já tive na vida foi a de uma exposição de fotografias de cartazes de rua."
(Nick Hornby - Alta Fidelidade)


                                                                     

segunda-feira, 25 de março de 2013

Londres





À noite o silêncio é sagrado,
percorre o corpo em estilhaço de sons.
O sangue é um presente,
se perde no sono dos turistas.
Na doença espreito o silêncio
e o sangue, esse, a parte viva,
é o Prometeu do corpo,
é o que cuida das crianças e dos velhos cantores,
e vive nos mortais como a água de teu rio.
Um dia desses viverei em tua felicidade envelhecida no sal de tuas ruas.

Londrinenses




“Quando acordou de um sono breve no meio da manhã, sabia que o arroubo, a onda criativa terminara. Não era simplesmente que ele estivesse cansado e de ressaca.”
Ian McEwan

A Portobello Road e sua feira no bairro mais romântico que pisei de Londres: Notting Hill é o exemplo de que a humanidade pode conviver junto ainda, os povos todos se digladiando ali nas almas desatentas ao ódio, e penso como ódios em suas vidas sobrevivem se amando entre as ruas, credos, cores, vestes, chapéus novos e velhos de um tempo de violoncelos taciturnos. Eu andei em alguns cantos, sendo escanteados em esquinas noturnas mordedoras na cidade enigmática, atraído por suas delícias farsantes, roupas coloridas, escusas permutas metafísicas com o passado e fui para o fundo de sua história. Aqui todos são todos e outros são os mesmos que sonham em caminhos livres, mesmo sem contar os passos sagrados, todos são todos, uma parte da vida ao rio; outra, aos que passam sobre a ponte desconhecendo o inferno e o paraíso da cidade linda e molhadinha tal qual o suor de suas baladas.

segunda-feira, 11 de março de 2013

DESAFORISMOS PASCALIANO




Andam dizendo que és uma mulher linda. Imagina se eles passassem aqui no hemisfério do meu Ser e a visse por inteira no meu quintal.

Se o todo não é tudo, onde anda você que não vejo mais partilhada em meus olhos.

A globalização acabou com o todo de tuas partes. A partir desse dia só se sente o teu cheiro nas roupas.

A matéria é inapropriada para os que acreditam no todo sem as partes.

O pergaminho é uma forma de ler o todo do passado em partes mortas e vivas do leitor.

O buraco onde se mete o todo é o mesmo em que as partes desaparecerão.

A tintura sobre a roupa é o todo que tinge as partes de uma vida.

Conhecendo as partes eu me desfiz do todo.


domingo, 10 de março de 2013

PÁGINA DO TEMPO TRANSCENDENTAL

                                                    Reims- La maison Taittinger


“...olhar para o Então como o mesmo rigor com que olhas para o Agora, e depressa chegas à conclusão que existe pouca diferença  entre eles, de que o Então e o Agora são essencialmente o mesmo.”
Diário de Inverno – Paul Auster

Eu cansei dessa história, dessa tragédia que está alimentando o monstro do formalismo oco, do evasivo e da condenação. A humanidade tem medo o medo que perpassa em toda sua extensão, por dentro no Ser quando a incompetência perpassa sua vidinha ordinária, por isso, chora, quando deveria estar acordada, bem antes da tragédia que ela alimenta vir à tona. Estamos no fim de um período, ou melhor, matamos um ciclo sem a menor cerimônia mas também pelo simples fato que não estamos mais a ver a longitude do passado. A distância é apenas um espaço que separa os povos de suas crenças, dos fanatismos, dos ídolos forjados, das razões enlouquecidas e dos excessos, da confiança na Verdade e de um tempo que tudo se apaga quando deveria iluminar mais tempo. Imaginamos que não há mais espaço entre nós e o futuro, ilusão – não da máquina – essa virou uma obsessão do homem contemporâneo, mas o que mesmo fazer com o que temos em mãos. O presente é uma poeira, o dia e a noite poderá se a mesma coisa, basta acreditar cegamente nesta distância ilusória que nós vivemos.

“A transcendência está fundada na ‘reflexão’. A reflexão é em sua essência própria transcendental, isto é, ela realiza a transcendência e a condiciona assim efetivamente.” (Martin Heidegger em “Nietzsche”, p. 559)