terça-feira, 24 de novembro de 2009

Eu que ando nos labirintos


De Boris Pasmonkov

Ando apaixonado por Philip Roth, mas lendo o espanhol Antonio Muñoz Molina, “Vento da Lua”, varrendo meus dias rumo ao fim. Ouvindo música, mesclando trabalho, editando impressões na solidão de Chet Baker ao fundo.
E como diz Roth, “Eu é que lamento não poder devastar você”, e eu que não cruzo as esquinas para não me perder no labirinto, e eu que não piso no tabuleiro para confundir o preto com o branco, então, eu que continuo pensando na chuva que irá chegar. “Me moriré en París con aguacero” como sonhou Vallejo, e eu que mudo o assoalho velho da casa para não pisar nos teus rastros.

Ferdinand Louis Celine em “Viagem ao fim da noite”

“O mês de janeiro era um bom momento para uma iniciativa dessa ordem. Decidimos, porque era mais cômodo, que nos encontraríamos em Paris num domingo, que em seguida iríamos ao cinema juntos e que daríamos talvez primeiro uma passadinha na festa Batignolles para começar, se todavia não estivesse muito frio na rua.”

sábado, 21 de novembro de 2009

Outros diálogos


Tejo

Tímida Alegria
tenho vício à rima, e ao mal de não dizer. e o que perdôo me castiga ao fim da tarde. há cinco anos o silêncio de minha mãe. a casa já só sabe ser mui quieta. mas a vida espanca. amanhã o fim da tarde me espera noutro canto. no avesso do mundo que cala. lá onde revelia é desculpa de minuto para ir a outro ponto: minha secreta viuvez tão longe, severa sobriedade já não é. (Mariane Farias)


Ainda
Chegou como Madredeus agora vindo com "Ainda". Melódico. Um tempo que ainda não cansamos de perder e pensar. A literatura é assim, esses vícios melódicos, doídos no fim de tarde, no encontro do texto com tempo que a solidão se apresenta. Assim, bem assim, eu li o texto.

"O livro de caracteres figurados, não traçados por nós, é o nosso único livro" G. Deleuze em "Proust e os Signos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Baía de Morlaix -fragmento



"O falso não é um erro ou uma confusão, mas uma potência que torna o verdadeiro indecidível." Gilles Deleuze




Acabei de ler um romance de Roth na terra de Corbière. O poeta maldito escreveu um livro, Amores Amarelos. Conheci Corbière antes de conhecer a baía, esse templo entre o mar e o mundo. O dono da padaria estava lendo um policial, Simenon. Vi de longe, ele atrás do balcão, enquanto uma funcionária atende os clientes em pleno humor. Deve estar apaixonada, pensei. Não pelo coroa, que parece estar se lixando ao mundo. O Amor é de longe o mais difícil aos homens. Eles preferem a solidão a terminar um amor. Se eu acabar amanhã, irei até a Baía da Morlaix. Pensar exatamente no último olhar. Sexo é mais importante que a devoção. Já estou aqui, leio, caminho, escrevo e dedico parte de minha a vida a um projeto que não sei onde irá chegar. O amor é mais simples quando se está nele, quando termina, pronto, acaba e ninguém ira ouvir os teus lamentos. Penso em sexo, acabo no amor, ele como sendo a única coisa que me fez escrever esse texto. Olho a praça vazia. Está escurecendo. Morlaix fala com o mar. A ausência.
António Paim

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Debate sobre cinema na 55ª Feira do Livro de Porto Algre



Palestra sobre cinema na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

12/11
Hora: 18:30
Local: Sala dos Jacarandás -
Cinema gaúcho: inovação e diversidade
Debater as virtudes e limitações do cinema gaúcho contemporâneo como o primeiro passo para desenvolver um projeto sólido de cinema brasileiro. Carlos Gerbase,Milton do Prado ,José Pedro Goulart e mediação de Cristiane Freitas Gutfreind

Hora: 20:30

Local: Praça de Autógrafos -

Cinema gaúcho: diversidades e inovações

Cristiane Freitas Gutfreind, Editora: Sulina

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Novos Rostos da Ficção Francesa. Uma Antologia


Capa de Letícia Lampert

A antologia é uma pequena amostra da nova ficção francesa. São 22 autores. O lançamento foi durante a Feira do Livro de Porto Alegre no Ano da França no Brasil. O projeto nasceu para difundir a nova produção literária de língua francesa. O interessante é que todos os autores ainda não foram traduzidos no Brasil, por isso o ineditismo da antologia que será distribuída gratuitamente no país. Com o apoio do Ministério da Cultura da França - CultureFrance o projeto se tornou realidade. Temos um belo livro, com biografias, fragmentos das obras e tudo bilíngue. Nouveaux Visages de la Fiction de France é o último trabalho da Sulina.

Morrer como Corbière-Lançamento na Feira do Livro



Do livro "Morrer como Corbière" de Emmanuel Tugny, lançamento hoje, 19h30 na Feira do Livro de Porto Alegre. "É uma luz escura que clareia o espaço, um guia, um anjo mau e bobo que desenha o tempo: anime-se tudo isso e o mundo fará rir um riso amarelo que mexe com a visão clara e diversa do trabalho da morte."

sábado, 7 de novembro de 2009

Raízes do Mal, o romance policial


Eduardo Miotto

Eu já tinha postado antes um fragmento do livro de Maurice Dantec. A capa evoluiu, melhorou. Essa é a que começará a circular pelas livrarias. Saiu o livro Raíze do Mal. Inaugura a col. Flores do Mal. O primeiro é um chute no estômago, uma bomba que é bom se ler tomando café, chá, cerveja, espumante, vinho ou melhor, uma leitura sem sem tomar nada. Ser sorvido pela narrativa do Dantec. Envolve, arrebata até chegar a última página. Um grande livro.
Segue mais um fragmento. Editora Sulina, tradução de Juremir Machado da Silva, 543 páginas, preço de capa, R$ 70,00. Quem mora em Porto Alegre poderá adquirir na Feira do Livro com desconto de 20%.


"Rodávamos pela nacional 9 na direção de Stresa. Seguíamos pela margem sudoeste. O sol pálido da manhã batia na superfície das águas irisadas pelo vento. A máquina reinava no seu box, entre mim e Svet, ligada às baterias fotovoltaicas e ao computador de bordo. A tela mostrava o turbilhão fractal costumeiro dos seus sonhos neurossimulados. Olhei para o cenário das montanhas e do lago de um azul tão intenso. Um espetáculo ainda mais fascinante se dava a ver. A luz dourada brincava com os cabelos de Svetlana e com as maçãs do seu rosto. Semiadormecida, ela mantinha a têmpora contra o vidro. Um traço infantil relaxava o arco dos seus lábios." (p.483)

domingo, 1 de novembro de 2009

Dor longitudinal


Imagem de História do Cinema




“Quer dizer que você também sabe mentir. Que bom. Ainda bem que você sabe mentir.”
Philip Roth



Será que você não consegue provar o tamanho do caminho da dor? Provar com dores nas mãos, no corpo inteiro o caminho por onde o tempo passou e deixou apenas a lembrança numa estrada esburacada como o céu sem fim, cheio de espaços, buracos em que nuvens existem para dissimular a imensidão da dor longitudinal da palavra. Dizer assim é fácil, quero ver estar dentro dessa dor, com dentes rangidos de tanto tilintar de frio, ou do corpo em chamas, a ferver, quando passar o dia todo ao sol, andando de um lugar a outro sem chegar ao fim, em uma estação de trem ou aeroporto. Sozinho. Novamente, será que você consegue expressar a dor diante da perda, a vida que desaparece no último olhar? Não.
Hoje é dia de você descansar sem pensar que a dor está rodando a sua casa. A criação não depende mais dos teus nobres dedos que digitam a dor no texto. A tela está em branco hoje, e você tem o tempo, a partir de agora, até completar 50 anos para escrever e pensar sobre o gosto que tudo isso poderá ter daqui uns anos. A dor não precisa do Ser para dar essa resposta, ela está aquém de uma pergunta filosófica, ela é uma chaga, uma ferida aberta que vive entre os que pensam e os que esqueceram de vez dessa faculdade maluca que é estar na nuvem das razões. Ao mesmo tempo carrega sua mochila de textos, de caracteres virtuais para depois descarregar páginas em branco com narrativas intermináveis e invenções de jogos de linguagens. Ainda assim nem tudo é inevitável, mesmo que necessário em suas perguntas, o tempo é alheio assim se você não fizer com o texto ganhe força junto com o pensar.
Tudo será oculto se o todo for mostrado de uma só vez. Não se consegue, porque essa parte imensa engana os olhos. Você não precisa de razões lógicas para obter respostas extraviadas. Engane os olhos, hoje, somente hoje, mas nada será real se o signo sangrar de vez, nada terá valor se for do início ao fim uma rigorosidade métrica textual. Tem que haver o desatino, uma força máxima de loucura, uma explosão de ideias para pôr o signo na rotação da força do pensamento. Um depende do outro. Nem só esse desejo de perguntar e de saber tentar esquecer a dor será notado no texto se não houver uma descontinuidade de palavras com a imagem. Depois uma retomada disso tudo, através do tempo para se ler com mais calma e espanto, de uma só vez para compreender a dor que as mãos sentem quando se deixa a vida de lado.
Depois, a imagem, repleta de sangue, essa sim, terá a dor expressa para na palavra. Ela será uma extensão da razão, um signo que não existirá por sim próprio, mas terá a ilusão de enganar os olhos de quem acredita na verdade vinda da imagem. Então, você tem agora, a letra guardada, a imagem dentro dela, as ideias sendo traduzidas, as mãos resistindo o tempo que for preciso para escrever e não solucionar nada que possa garantir o futuro. Daqui uns anos, quando você completar 50 anos, suas mãos não sentirão mais dores. Seu corpo será testemunha disso tudo.